Quaresma

A misericórdia é a estratégia do amor incondicional do Pai

Publicado por Paulo Henrique | 21/03/2016 - 12:53
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A manifestação de um Deus Misericordioso causa uma reviravolta não somente no pensamento teológico, mas em como compreendemos e vivemos nossa fé cristã. Neste ano por ocasião da instalação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco, nas Primeiras Vésperas de 11 de abril de 2015, promulgou a publicação da Bula Misericordiae Vultus, em que manifesta sua vontade e intenção na condução deste Ano Santo.

Neste momento de grandes mudanças é preciso permanecer vigilantes; olhar para o essencial. Ao longo da história da Igreja, a solidariedade para com os pobres e socialmente desfavorecidos, o cuidado dos doentes e dos inválidos, e a coragem para defender os oprimidos, os explorados e os perseguidos, sempre fizeram parte do testemunho cristão neste mundo, que talvez seja hoje mais necessário do que nunca.

A misericórdia é a estratégia do amor incondicional do Pai por cada um de seus filhos e filhas. Sentir-se aceito, acolhido, amado é o modo que Deus age para dissipar o medo, a covardia e a ilusória tendência de imaginarmo-nos autossuficientes.

Deus nos humaniza quando se vale da sua misericórdia, no fundo Deus quer nos salvar de nós mesmos, da nossa prepotência, da nossa arrogância, do nosso declínio para a maldade.

Há os que lambem suas feridas, cultivando traumas e regando seus fracassos com murmurações e insatisfações; outros colecionam cicatrizes que recordam frustrações e lamentam um passado de erros.

Olhar aos excluídos

É de extrema importância conceitual, deixar bem claro, que a Igreja jamais fechará seus ouvidos ao clamor do povo que grita: “Não queremos misericórdia, queremos justiça, queremos os nossos direitos”. “Não queremos um Estado ou um empresário que nos dê esmola misericordiosamente, temos direito a um salário justo”. É bom que o nosso sistema político se baseie no ideal da justiça, que em nosso país é ainda um grande desafio. Mas não nos esqueçamos de que o nosso sistema econômico e social também se baseia na competição. Não há espaço para a compaixão e a misericórdia.

O tema da misericórdia não está superado, a mensagem da misericórdia é de grande atualidade. A atualidade da misericórdia nos estimula a aprofundar a tradição do pensamento humano por uma resposta à nossa situação.

Embora a palavra “misericórdia” seja específica na Bíblia e na tradição bíblica, encontram-se preparações e antecipações na tradição humana do Ocidente. A tradição da filosofia e também da teoria da tragédia no Ocidente conhecem a compaixão. A tragédia clássica quer que o espectador experimente compaixão com o destino do herói e nele experimente o seu próprio destino. Daí, na teoria moderna do teatro, muitas vezes surgiu o interesse pelo ensino e pela educação moral do telespectador. Os princípios de empatia e de simpatia (syn-pathein, compaixão), portanto, são constitutivos da tradição humanista.

A afirmação “Deus é misericórdia” significa que Deus tem um coração pelos miseráveis. Ele não é um Deus, por assim dizer, sobre as nuvens, desinteressado no destino dos homens, mas, ao contrário, deixa-se comover e tocar pela miséria do homem. Ele é um Deus compassivo, um Deus “simpático” (no sentido original dessa palavra).

 

Frei Claudemir Vialli
Sobre o autor

Frei Claudemir Vialli

Frade Menor Capuchinho da Província de São Paulo, Frei Claudemir é natural de Birigui-SP. Ingressou no seminário no ano de 1994, no Santuário São Francisco de Assis - Penápolis-SP, tornando-se sacerdote em 16 de outubro de 2004 no município de Birigui-SP.