História

OS CAPUCHINHOS DA SABOIA NO RIO GRANDE DO SUL

 

A origem dos capuchinhos e sua implantação na Saboia

 

A Ordem dos Frades Menores Capuchinhos surgiu no séc. XVI, num momento de renovação da Igreja em meio às grandes transformações econômicas, políticas, sociais, culturais e religiosas que deram origem à modernidade. No âmbito religioso, toda a Europa foi sacudida por um desejo de reforma que se expressou no surgimento de igrejas autônomas em relação à Igreja Católica, como é o caso das igrejas luteranas, reformadas (calvinistas), batistas, menonitas, entre outras. Mas também entre aqueles que permaneceram fieis à Igreja Católica houve desejo de renovação para viver uma vida cristã mais de acordo com o Evangelho e com os novos tempos. Entre os frades seguidores de Francisco de Assis tal desejo também se manifestou. No convento de Montefalcone, na Itália, os freis Mateus de Bascio, Ludovico de Fossombrone e Rafael de Fossombrone se propuseram a uma nova forma de vida franciscana, privilegiando a oração, a pobreza e a presença junto aos pobres. Sua proposta era a de retomar o espírito e o modo de vida original de Francisco de Assis e assim dar uma resposta mais eficaz para as exigências que a realidade lhes apresentava.

 

O projeto dos três frades ganhou adeptos entre seus irmãos e, em 3 de julho de 1528, o Papa Clemente VII, através da bula “Religionis Zelus”, reconheceu a nova forma de vida franciscana e a denominou de Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Por estar sintonizada com os anseios de renovação dos católicos daquele tempo, a reforma capuchinha experimentou uma rápida expansão na Itália e, em poucos anos, atravessou os Alpes e se expandiu pela Europa. Em 1574 um convento foi aberto em Paris e, no ano seguinte, outro Chambéry, no Principado de Saboia. Com a proteção do príncipe Philibert e o apoio de São Francisco de Sales, logo os capuchinhos espalharam sua presença em toda a região e se destacaram na pregação de missões populares. O principal objetivo das missões era o de trazer de volta para a Igreja Católica àqueles que tinham aderido à reforma protestante.

 

No séc. XVI, a reforma capuchinha cresceu rapidamente na Saboia. Em 1663 a Província de Saboia contava com 257 clérigos e 69 irmãos e já estava firmemente estabelecida no lado italiano do ducado, na região do Piemonte. O séc. XIX, porém, foi menos feliz para os frades. A França vivia a tensão social que levou à revolução burguesa de 1789. A Igreja, antiga aliada da nobreza, foi envolvida no turbilhão revolucionário. As propriedades eclesiásticas foram desapropriadas e as ordens e congregações religiosas supressas.

 

 

 

A partir de 1816, por iniciativa de Frei Eugène de Rumilly, alguns frades que permaneceram na Saboia vivendo na clandestinidade começaram a reagrupar-se e, no ano seguinte, reabriram um convento em Chatillon. Com a diminuição da perseguição por parte do governo, outros frades retornam e novos conventos são reabertos e a Província é restabelecida. A pregação de missões populares é retomada e novos campos missionários são abertos. Em 1854 a Província de Saboia assume a direção do Seminário Episcopal de São Paulo onde se manterá até 1879. Em 1863 uma missão é aberta nas Ilhas Seychelles, um território inglês no oceano Pacífico.

 

As tensões entre o governo e a igreja que, de tempos em tempos reapareciam com desapropriações de conventos e proibição de atividades, principalmente as educativas, mantinham os capuchinhos em sobressalto. Em 1889, uma lei foi aprovada obrigando a todos os clérigos e religiosos à prestação do serviço militar. Para evitar que os jovens frades tivessem que interromper a formação e abandonar a vida religiosa, os freis da Saboia, juntamente com os da Província de Lyon, aproveitam-se de uma brecha na lei que isentava do serviço militar aos jovens que permanecessem fora do país até os 30 anos e, a partir de 1890, enviam seus formandos à cidade de Ghazir, na Síria. Lá os frades faziam seu noviciado e seus estudos em preparação ao sacerdócio só retornando à França depois de completar os 30 anos.

 

Da Síria ao Brasil

 

O sonho de encontrar um refúgio em Ghazir durou pouco. As dificuldades para manter um grupo significativo de frades num país majoritariamente muçulmano e os constantes problemas de saúde dos jovens formandos impulsionaram a busca de outro lugar mais saudável e menos oneroso.

 

Entre as possibilidades que surgem está o convite feito por Dom Cláudio Gonçalves Ponce de Leão, bispo de Porto Alegre, para que os capuchinhos de Saboia viessem ao estado para se ocupar da pregação de missões entre os imigrantes italianos. Dom Cláudio assumira a diocese no ano de 1890 e encontrara a igreja do Rio Grande do Sul em lamentável situação. Financeiramente, com a proclamação da República e a separação entre igreja e estado, este deixara de subsidiar as atividades religiosas e a maioria das paróquias não dispunha de recursos sequer para manter o clero. Este, por sua vez, era numericamente insuficiente e muitos dos padres não seguiam as orientações da igreja, seja no exercício do apostolado como na sua vida privada. O Seminário Episcopal de Porto Alegre construído por seu antecessor, Dom Diego Laranjeiras, não dera os frutos esperados e, por carência de formadores e de financiamento, estava à beira da falência. A influência da igreja sobre a sociedade era ameaçada pela ideologia da nova classe dominante que, inspirada pelo positivismo, via a religião como um fator de atraso para a sociedade. A educação pública calcada no modelo comtiano e a imprensa que fazia o novo pensamento chegar a todos os recantos do Estado eram uma ameaça contra a qual o bispo não tinha recursos para lutar. Não lhe restava alternativa que buscar recursos de fora. O povo católico, tanto o brasileiro como os imigrantes que continuavam a chegar, vivia sua fé longe da instituição eclesiástica.

 

Depois de vários contatos entre dom Cláudio e os superiores dos capuchinhos em Roma e na Saboia, finalmente, em 5 de dezembro de 1895, os freis Leon de Montsapey e Bruno de Gillonnay partiram de Bordeaux em direção a Porto Alegre. Acompanhava-os o provincial de Saboia, Frei Raphael de La Roche. O objetivo era conhecer a região e ver as condições para estabelecer um possível refúgio para os frades estudantes no Brasil, caso tivessem eu deixar a Síria. Em 2 de janeiro os três chegaram a Rio Grande e de lá a Porto Alegre. Dom Cláudio propôs que os capuchinhos se instalassem em Veranópolis para, a partir dali, pregar missões entre os imigrantes italianos. Em 16 de janeiro eles partiram para a serra e no dia 18 chegaram a Garibaldi onde foram recebidos pelo pároco local, Pe. Giovanni Fronchetti que os convidou a se estabelecer na cidade. Após visitar Bento Gonçalves e Veranópolis, a decisão foi pelo estabelecimento em Garibaldi. A favor de tal decisão contou a doação de uma casa para a moradia dos frades feita pelo antigo pároco, Pe. Bartolomeu Tiecher. No final de 1897, com a chegada dos freis Casimir d’Andilly, Edmond de Nâves e Hilarion de Lanslevillard, a missão é reforçada.

 

A situação mudou drasticamente no final de 1898 quando, em Ghazir, três estudantes morreram de tifo. Não podendo retornar à França, em dezembro de 1898, a comunidade de Ghazir foi transferida, de forma precipitada, para Garibaldi. Eram 10 noviços, 11 estudantes de filosofia e teologia e quatro professores. Em fevereiro de 1899 chegou o segundo grupo. Para abrigar os recém chegados, um convento foi construído às pressas em Flores da Cunha para onde os noviços e estudantes de teologia foram transferidos no final de 1899. Mas o espaço era pequeno para tanta gente e mais um convento foi construído, desta vez na localidade de Vespasiano Correa, então chamada Esperança. Devido a conflitos com o Pe. Teodósio Sanson, pároco da localidade, os frades abandonaram o convento de Vespasiano Correa em março de 1902, retornando para Garibaldi.

 

No início do ano de 1902, o quadro dos capuchinhos no Rio Grande do Sul é de 15 frades que se dedicam às missões e à formação dos jovens candidatos à vida capuchinha, 21 frades estudantes de filosofia ou teologia, 10 noviços, e quatro terceiros perpétuos. Até o ano de 1908, continuaram a chegar frades da França. A partir de 1908, vários frades aqui formados foram encaminhados para a missão nas Ilhas Seychelles e para a Itália e os que completavam os 30 anos e por isso estavam livres do serviço militar, retornavam para a França.

 

Em 1913, quando os frades deixaram a direção do Seminário Diocesano de Porto Alegre, um grupo significativo retornou para a França. No ano seguinte, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o governo francês convocou todos os cidadãos residentes no estrangeiro para prestar o serviço militar. A maior parte dos frades retornou para a França. A partir desse momento, a presença capuchinha no Rio Grande do Sul passou a ser majoritariamente de frades nativos.

 

As missões populares

Dois meses após se estabelecerem em Garibaldi, Frei Bruno e Frei Léon lançaram-se à pregação de missões populares seguindo a tradição dos capuchinhos de Saboia. Num primeiro momento, as missões limitavam-se às capelas das linhas do interior da paróquia de Garibaldi. As missões são assim descritas por frei Bruno:

 

Ordinariamente nós não vamos dar estes exercícios na Igreja Paroquial, mas nas capelas distantes, as quais são muito abandonadas e privadas de socorro religioso. Nós ficamos numa das boas casas do lugar. [...] Desde o amanhecer nós atendemos as confissões. Às dez horas, exame de consciência e pregação na Missa. Depois da Missa, os Batismos, normalmente muito numerosos, pois a distância impede de levar as crianças à Igreja paroquial, de modo que eles devem seguidamente esperar 6 meses ou mais para serem batizados. Pela tarde, às 2 horas, catecismo até às 5 horas, para preparar os jovens para a 1ª Comunhão. Depois recomeçam as confissões. Estes exercícios duram 8 dias e durante esse tempo ninguém trabalha nesta localidade. Deus parece abençoar nossos trabalhos. Todos se confessam e seguidamente as pessoas vêm de muito longe e esperam até dois dias para poder se confessar (Carta de 25 de  janeiro de 1897).

 

Logo a fama dos missionários espalhou-se pela região e os frades foram convidados a pregar em outras paróquias. Em abril de 1897 eles pregaram missões em Flores da Cunha e em março de 1898 em Veranópolis e, em seguida, em praticamente todas as paróquias da região de colonização italiana chegando até a distante Silveira Martins, no ano de 1891.

 

Um novo desafio se abriria para os capuchinhos no ano de 1900 quando o pároco de Vacaria, Pe. Mário Déluy, convidou os frades para pregarem missões em sua paróquia habitada majoritariamente por pessoas de cultura brasileira. Além de ter que pregar em português, a dificuldade maior era a de entender o catolicismo popular brasileiro ali dominante e totalmente desconhecido para os missionários franceses. Apesar das dificuldades, o resultado foi muito positivo:

 

Essa pobre gente não conhece nem a confissão nem a comunhão. Quase todos os que se confessaram e comungaram recebiam os sacramentos pela primeira vez nas suas vidas. Muitos não são casados e, em alguns dias da Missão, tinha-se tanto trabalho para casar como para confessar. Muitos adultos não são batizados. Nós batizamos gente com 18 e 22 anos, etc. Que trabalho e que obra de caridade! (Frei Bruno de Gillonnay, carta de 14 de janeiro de 1901).

 

Frei Bruno se entusiasmou de tal modo com a região e o povo que planejou abrir uma fraternidade na cidade de Vacaria.

Apesar do limitado número de frades, as missões continuaram sendo um dos principais ministérios dos frades franceses e dos capuchinhos brasileiros que pouco a pouco começaram a ingressar na Ordem. Dentre todos os frades franceses, o que mais se destacou neste ministério foi Frei Fidèle de La Motte-Servolex. O sonho inicial de ter um grupo de frades exclusivamente dedicado às missões só será concretizado a partir da década de 1920, já sob a coordenação de frades brasileiros.

 

  1. As paróquias

Preocupado em organizar a igreja no estado, Dom Cláudio acelerou a criação de novas paróquias, especialmente nas colônias onde, a cada ano, aportavam milhares de imigrantes, principalmente italianos e poloneses. Faltavam, porém, um elemento fundamental: padres para assumirem como párocos.

 

Para suprir a necessidade, Dom Cláudio fez gestões junto à Santa Sé e a várias congregações religiosas. Além dos palotinos que já tinham presença na região de Santa Maria e dos jesuítas que estavam na região de colonização alemã, na última década do séc. XIX para cá vieram, além dos capuchinhos, os padres carlistas e os monges camaldulenses.

 

Para os capuchinhos, assumir paróquias era um ministério estranho. Não fazia parte da tradição da ordem e muitos frades opunham grande resistência ao ministério paroquial, pois significava estabilidade. E a vida dos frades é a da itinerância missionária. Mesmo com as várias ofertas do bispo anteriormente feitas, os frades só passaram a admitir a possibilidade de assumir a administração de paróquias a partir de 1902 e por uma razão prática: muitos párocos da região se negavam a aceitar que os frades pregassem missões em suas paróquias. Com isso, os capuchinhos ficavam sem fonte de renda para manter o número de estudantes que a cada ano aumentava.

 

Vencidos pela necessidade, os frades se resignaram a assumir a direção de paróquias. A primeira paróquia assumida foi a de Vacaria. No dia 11 de dezembro de 1902, Frei Alfred de Saint-Jean d’Arves foi nomeado pároco de Vacaria por seis meses. Ele assumiu no dia 10 de janeiro de 1903 tendo como coadjutor Frei Fidélis de La Motte Servolex. O trabalho à frente da paróquia de Vacaria mostrou-se, desde o início, desafiador para os frades, como o descreve Frei Bruno:

Salvo para quem fez a experiência, é difícil imaginar a vida do padre nestas imensas paragens. Ele parte para meses inteiros levando consigo tudo o que é necessário para celebrar a Missa e administrar os sacramentos. As casas são afastadas umas das outras. As principais dentre elas são a residência de algum rico proprietário, ‘fazendeiro’, que com seus numerosos empregados domésticos e algumas pobres famílias que ele deixa se estabelecerem sobre seu ‘campo’, tem todo o jeito de um chefe de tribo. O padre vai então de casa em casa, levantando nas ‘fazendas’ seu altar por um dia ou dois, e administra todos os sacramentos. Algumas vezes, pelo contrário, ele deve se direcionar para a região de ‘mato’, ocupadas em parte pelos antigos escravos colocados em liberdade em 1888 e que ali vivem uma vida próxima à barbárie. Expressar o bem que o missionário faz a esta população é coisa difícil.

Em 10 de maio de 1903, uma segunda paróquia é assumida: Esperança (atual Vespasiano Correa). Para pároco é nomeado frei Léonard de Chambéry. Ele substituiu o antigo pároco, Teodósio Sanson, com o qual os frades haviam tido profundas divergências. Sem poder ocupar a igreja matriz e a casa cural que estava ocupada pela polícia a mando do prefeito de Guaporé, o coronel Vespasiano Correa, os frades constroem nova igreja afastada do povoado. A decisão desagrada aos comerciantes da cidade que veem seus fregueses desviados para o novo local. Na noite de 26 para 27 de janeiro de 1905, por ocasião da visita pastoral do bispo Dom Cláudio, a nova casa cural onde pernoitava o bispo e sua comitiva e os frades, foi alvo de um intenso tiroteio do qual, felizmente, todos saíram ilesos. Em resposta à agressão, o bispo retirou os frades da paróquia que ficou fechada por dois anos.

Mais feliz foi o estabelecimento dos frades na administração das paróquias de Flores da Cunha e Veranópolis. Em Flores da Cunha, desde março de 1899 os frades tinham o noviciado. Pe. Augusto Finotti, pároco da localidade, fizera todo o esforço para que os frades se instalassem na localidade. Num acerto informal, ele atendia às comunidades do interior e os frades atendiam a igreja matriz. Em 1900 Pe. Finotti regressou à Itália. Seu sucessor, Pe. Ângelo Donatto, segue o mesmo trato com os capuchinhos até 1903 quando o bispo passa a administração do curato para os frades. O primeiro pároco foi Frei Théophile de Villards-sur-Thônes.

Em Veranópolis, depois de terem pregado missões em 1898, os frades estabelecerão uma presença provisória no início de 1902. O objetivo era auxiliar o velho pároco Pe. Matheus Pasquali que já não conseguiu atender a imensa colônia. A presença provisória se consolida quando, em abril daquele mesmo ano, os formandos capuchinhos brasileiros que estavam em Garibaldi foram deslocados daquela localidade para Veranópolis para dar lugar aos estudantes franceses que tiveram que deixar Vespasiano Correa por causa dos conflitos com o Pe. Teodósio Sanson.

Em Veranópolis, o acerto com o Pe. Matheus foi diferente do de Flores da Cunha: enquanto o Pe. Matheus atendia à matriz, os frades se deslocavam pelas capelas do interior. Em 1904, com o fim da provisão do Pe. Matheus, o bispo nomeou frei Fidèle de La Motte-Servolex como primeiro pároco capuchinho de Veranópolis. Dois anos depois ele foi substituído por Frei Louis de La Vernaz que permaneceu como pároco por 13 anos, deixando profundas marcas na cidade.

Ainda no ano de 1904, os frades de Vacaria iniciaram a presença capuchinha em Lagoa Vermelha. A pedido do bispo, os frades passaram a missionar a vasta região desassistida pelo padre que residia na cidade. Duas são as razões que fazem frei Bruno aceitar a missão: o medo de que os protestantes se instalem na cidade e a possibilidade de instalar uma missão junto aos povos kaingang da região. Em 1905 os frades passaram a morar na cidade onde, após a morte do antigo pároco, assumira o Pe. Henrique Domingos Poggi. Em 1908, com a nomeação de Pe. Domingos para o recém-criado curato de Sananduva, os frades assumiram formalmente a paróquia.

Em 1911, Pe. Domingos foi novamente transferido para Bento Gonçalves e os frades foram solicitados pelo bispo para assumirem em seu lugar o cuidado pastoral de Sananduva onde, a cada ano, afluía considerável número de colonos italianos provindos das colônias velhas. Sempre na intenção de atender aos indígenas do Toldo de Cacique Doble, frei Bruno aceita a nova missão e para lá nomeia frei Léonard de Chambéry. Por motivo do local da construção da nova igreja matriz, frei Léonard entrou em conflito com os comerciantes da cidade e teve que retirar-se sob ameaça de morte. Os frades retornaram à cidade em 1914 e frei Gentil Giacomel assumiu como cura da localidade.

No ano de 1913 os frades franceses também assumiram a direção da Paróquia Santo Antônio, no Bairro Partenon. Os frades, desde o ano de 1903, possuíam uma chácara no local que era usada como lugar de descanso para os professores do Seminário. No local havia uma capela dedicada a Santo Antônio que os frades atendiam regularmente. Em 1911 a capela foi elevada à condição de Paróquia. O primeiro pároco foi o Pe. Manoel Reis da Costa Neve. Em 1913, quando os frades foram afastados da direção do Seminário, o novo bispo, Dom João Becker, como medida de compensação, ofereceu-lhes a direção da paróquia. Frei Bernardin D’Apremont foi o primeiro pároco capuchinho da localidade.

Em Garibaldi, primeiro lugar onde os frades se instalaram, os frades só passaram a envolver-se no trabalho da paróquia a partir de 1909. Neste ano, Pe. Giovanni comprou o jornal “La Libertá” e o transferiu para a cidade. Para que ele pudesse se dedicar à direção do jornal, um acordo é estabelecido entre os frades e o pároco: Pe. Giovanni se dedicaria à redação do jornal e à pregação na matriz nos domingos, e os frades atenderiam às capelas do interior e o serviço pastoral na paróquia durante os dias da semana. Em 1913 os freis Frei Michel des Molletes e Gentil de Caravaggio assumiram como auxiliares. Em 1917, devido a razões de saúde, Pe. Fronchetti se licenciou de forma indeterminada do cargo de pároco. Permaneceu com o título, mas a administração passa a ser exercida por Frei Michel que recebe o título de pró-pároco. Ele permaneceu na função até o ano de 1921 quando foi substituído por Frei Bruno de Gillonnay. Com o retorno de Frei Bruno à França, no fim do ano de 1924, substituiu-o Frei Antônio de Caxias que, em fevereiro de 1927, com a morte de Pe. Fronchetti, se tornaria o primeiro pároco capuchinho de Garibaldi.

No trabalho paroquial, os frades imprimem o ritmo e o jeito missionário capuchinho, como descrito por Frei Michel des Molettes:

Imagine-se, com efeito, atender paróquias tão grandes como uma de nossas dioceses, possuindo, é certo, seu centro, mas semeadas de capelas, indispensáveis para o serviço religioso de toda uma população disseminada aqui e ali sobre toda a extensão e na impossibilidade de chegar à igreja principal senão raras vezes. Por isso, para atendê-las, era necessário, de tempos em tempos, fazer um giro pelas capelas. Eram cavalgadas intermináveis ao longo dos caminhos, verdadeiros lamaçais e precipícios muitas vezes no meio das florestas cheias de mosquitos ávidos por sangue. Apenas chegando no lugar, era necessário entrar no confessionário para fazer o atendimento que durava muitas vezes das duas ou três da manhã até tarde da noite; depois disso, pregar, catequisar, batizar, abençoar os casamentos, visitar os doentes; em seguida, ao fim de quatro ou cinco dias de um trabalho esmagador, rapidamente seguir para outra, em meio às mesmas dificuldades para ali recomeçar o mesmo trabalho árduo. Trabalho árduo, é isso mesmo: pois apenas uma primeira viagem concluída, era já o momento de começar uma segunda, depois uma terceira e assim em seguida quase sem parar.

  1. Espiritualidade e estética

Através das missões populares e das paróquias os frades buscavam manter os colonos italianos e os brasileiros apegados à doutrina da igreja e aos sacramentos. Mas, para garantir o apego dos fieis às normas da igreja, era necessário mudar o modo como os católicos se sentiam ligados a Deus. Era necessário renovar a espiritualidade. Para os frades franceses, tanto o catolicismo dos italianos como o dos brasileiros era marcado por muita exterioridade e superstição.

Com o objetivo de conduzir os colonos para uma religião mais interior e um comportamento conforme as normas da igreja, os frades introduzem as devoções a Nossa Senhora de Lourdes (a Madonna dei francesi, como era conhecida nas colônias italianas), ao Sagrado Coração de Jesus, ao Sagrado Coração de Maria e a Adoração ao Santíssimo. São devoções que nasceram no contexto francês e que expressam a ruptura entre a igreja e a sociedade e que buscam manter o católico afastado das preocupações do mundo e preocupado unicamente com a salvação da alma. Por terem como centro a Eucaristia, as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e de Maria e a Adoração ao Santíssimo exigem a presença do padre, fazendo com que o leigo se torne submisso e dependente da autoridade do clérigo. Com isso, a autonomia religiosa que os colonos haviam experimentado ao se estabelecerem na região e construírem capelas onde eles mesmos nomeavam seus rezadores e catequistas pouco a pouco vai desaparecendo. Na região dos Campos de Cima da Serra, o grande esforço dos padres é para purificar, senão eliminar, as devoções da tradição açoriana, especialmente a festa do Divino Espírito Santo e as Cavalhadas que a acompanhavam.

A principal maneira para tornar popular a nova espiritualidade foi através dos cantos religiosos traduzidos do francês e compilados por frei Fidèle de La Motte-Servolex no Lodi Sacre. De cunho eminentemente penitencial e mariano, os cantos exaltavam a alegria de afastar-se dos pecados do mundo e buscar, através de Maria, a salvação em Deus e na igreja.

O novo modo de expressar a fé católica trazido pelos frades também se expressou na arquitetura. Em Flores da Cunha, Veranópolis, Vacaria, Sananduva, Cacique Doble, Garibaldi e no Colégio Sévigné em Porto Alegre, os capuchinhos ergueram igrejas góticas que podem ser classificadas entre as mais belas do estado. Os arquitetos e construtores destas igrejas foram os freis Louis de La Vernaz, Dobert D’Apprieu e  Éphrem de Bellevaux.

Como suas torres buscando o alto, o gótico indica que o ser humano, para alcançar a salvação, deve abandonar as preocupações do mundo e voltar seu olhar unicamente para o alto e desejar a vida eterna em Deus.

  1. O seminário de Porto Alegre

Uma das maiores dificuldades para a renovação da vida da igreja no Rio Grande do Sul era a precária situação do clero. Além de numericamente insuficiente, muitos dos párocos descuravam seu ministério e não eram infrequentes os escândalos por eles provocados nas comunidades locais.

Ao assumir a direção da diocese, Dom Cláudio colocou todas as suas esperanças no seminário. Para administrá-lo e atuarem como professores convidou os jesuítas que ali permaneceram até 1899 sem grandes resultados. Para substituí-los, vieram os padres lazaristas que tampouco conseguiram melhorar a situação do seminário e se retiraram em 1902. Estando o seminário a ponto de fechar, Dom Cláudio ofereceu aos capuchinhos a difícil tarefa. Frei Bruno, vendo na oferta a possibilidade de consolidar a missão no Rio Grande do Sul, insistiu junto aos superiores da França para que aceitassem a missão. No início de 1903, Frei Jean de Cognin chegou a Porto Alegre para negociar o contrato com o bispo e ser o primeiro diretor. Para formar o quadro de professores, além de alguns frades vindos da França, vários frades que trabalhavam nas colônias e nos Campos de Cima da Serra foram deslocados para Porto Alegre. A missão ofereceu para a diocese os melhores professores de que dispunha e, em pouco tempo, os resultados começaram a aparecer, tanto no número dos seminaristas como na qualidade da formação dos mesmos.

Na formação, os frades aliavam o conhecimento que tinham da realidade pastoral em que os futuros padres atuariam com a renovação bíblica e teológica que estava acontecendo na Europa. Esta constante busca de atualização fez com que, não poucas vezes, os frades vivessem momentos de tensão com o bispo que nem sempre concordava com o modo de educar dos frades.

Para sustentar a obra do Seminário, os frades criaram a “Obra das Vocações Sacerdotais” pela qual os leigos das paróquias de todo o estado podiam contribuir através de orações e de donativos materiais com a formação dos novos padres. Tal obra possibilitou que muitos filhos de colonos pudessem frequentar o Seminário e se tornassem padres.

Durante o ano de 1912, Frei Bruno, então reitor do Seminário, conseguiu junto à Santa Sé a renovação por 10 anos do contrato dos capuchinhos com a diocese para a direção do Seminário. No mesmo ano, a Santa Sé concedeu ao Seminário de Porto Alegre conceder o título de Bacharel em Teologia, o que colocou o Seminário no mesmo nível das outras faculdades públicas existentes na cidade.

A nomeação de Dom João Becker como arcebispo de Porto Alegre faz com que o futuro que se desenhava risonho se transformasse numa grande decepção. Sem apresentar qualquer justificativa, o novo bispo, no início de 1913, não reconheceu o documento da Santa Sé e, em 27 de fevereiro, através da imprensa, faz saber aos frades que o seminário de Porto Alegre seria fechado e os seminaristas transferidos para São Leopoldo onde ficariam a cargo dos jesuítas. No dia seguinte, através do vigário diocesano, notificou os frades de que estes deviam deixar as instalações do seminário em três dias. Dessa maneira abrupta e triste encerrou-se aquela que foi considerada por Frei Robert D’Apprieu, então superior dos capuchinhos no Rio Grande do Sul, “a obra mais importante da missão.”

  1. A educação

Com a separação da igreja e do estado, as escolas que, durante o período colonial e imperial haviam permanecido sob a tutela da igreja, passaram ao domínio do estado. Este porém, não impediu a existência de escolas privadas. Os bispos viram nesta possibilidade legal uma forma de manter a influência da igreja sobre a sociedade através da formação das novas gerações de católicos.

Dom Cláudio, assim como os outros bispos do Brasil, buscou na Europa religiosas e religiosos para fundarem escolas católicas nas principais cidades do estado. Os capuchinhos, em contato direto com a população através das missões populares e das paróquias, também sentiram a necessidade de instrução para os filhos e filhas dos imigrantes. Já em 1896 Frei Bruno começou a estabelecer contatos com congregações religiosas francesas para que estas viessem se instalar na região. Depois de muitas negociações, em 23 de dezembro de 1898 as  Irmãs de São José de Moûtiers chegaram a Garibaldi e uma escola para meninas iniciou suas atividades no dia 16 de janeiro de 1899. Recrutando vocacionadas entre as filhas dos imigrantes, as irmãs logo expandem sua presença para Antônio Prado (1900), Caxias do Sul (1901), Flores da Cunha (1901) e mais tarde em Vacaria, São Lourenço (Município de Garibaldi), Pinto Bandeira, Pelotas e Porto Alegre onde, além do Colégio Sevigné, também assumiram a direção da Secção Feminina do Hospital São Pedro.

Para a educação dos meninos, a congregação contatada foi a dos Irmãos Maristas que, desde o ano de 1900 estavam estabelecidos em Bom Princípio. Depois de muitas tratativas envolvendo Frei Bruno, o Provincial dos freis capuchinhos da Saboia e os superiores dos maristas na França e Bélgica, no dia 1º de junho de 1904, chegaram os maristas a Garibaldi em número de três, e, no mesmo dia, iniciaram as aulas.

Em 1907, os lassalistas assumem a escola paroquial de Vacaria. Devido a dificuldades econômicas e culturais, o colégio São Carlos encerrou as atividades no final do ano seguinte.

Para o atendimento dos colonos poloneses, Frei Bruno conseguiu a vinda, da Polônia, de Frei Honorato Jedlinski. Além de pregar missões nas comunidades poloneses, frei Honorato foi um incansável incentivador de escolas católicas para os filhos de poloneses. Nos cinco anos em que permaneceu no estado, ele ajudou a fundar 25 escolas polonesas em Dom Feliciano, Mariana Pimentel, Veranópolis, Vista Alegre do Prata, Nova Bassano, Guaporé, Vespasiano Correa, Antônio Prado, São Marcos, Pelotas e Porto Alegre. A mais interessante delas foi o internato da Primeira Linha de Veranópolis que funcionou até 1914 como uma escola que formava professores para as comunidades polonesas de todo o Rio Grande do Sul.

Ainda no campo educativo, merece destaque a atuação dos frades junto aos indígenas na região de Lagoa Vermelha. Depois de muitas negociações com o governo estadual, em 1910, uma escola, sob a direção do professor Ricardo Zeni, é aberta no Toldo de Lagoa Vermelha. No ano seguinte, outro professor, Lúcio Compagnoni, agregou-se à missão. Além da alfabetização, aos professores cabia oferecer aos indígenas noções básicas de agricultura, saúde e orientá-los nas suas relações com os brancos. No ano de 1914, por intervenção das autoridades do recém-criado Serviço de Proteção ao Índio, a escola passa para a responsabilidade do estado.

Nova tentativa de escolarização dos indígenas será feita nos anos de 1919 e 1920 na reserva do Toldo do Rio Ligeiro, ainda sob a coordenação de Frei Bruno. Mal o professor José Gelain iniciara as atividades, a escola foi incendiada pelos colonos que chegavam da região de Flores da Cunha e queriam apossar-se das terras indígenas.

  1. A imprensa

No final do século XIX e início do século XX, a imprensa era o grande espaço de embate político e ideológico. Através dos jornais, os diferentes grupos políticos e sociais buscavam expandir seu ponto de vista sobre a sociedade e combater os que pensavam diferentemente. Assim como em todo o Brasil, no Rio Grande do Sul, o grande embate dava-se entre os positivistas que sustentavam a nova ordem republicana e os católicos que viam nela uma ameaça para a igreja. Tanto em Porto Alegre como nas cidades do interior, circulavam jornais, muitos de curta duração, que defendiam as duas visões.

Atento à realidade e com o intuito de manter os imigrantes italianos apegados à fé trazida da Itália, frei Bruno, desde 1904, sonha com a aquisição de uma impressora. Seu objetivo é “estabelecer com simplicidade, no centro da colônia italiana, uma pequena impressora, que levará, periodicamente, no seio das famílias, em sua língua materna, uma página do santo Evangelho, explicada e comentada, uma história edificante, alguns conselhos de agricultura, a indicação de algumas brochuras adaptadas às necessidades dos colonos [...]. Os bons colonos italianos, privados de qualquer informação, na solidão de seus campos, aguardam esta impressora com santa impaciência. Esperamos que, no espaço de um ano, seus desejos sejam satisfeitos” (Frei Bruno de Gillonnay – Relatório a Mons. Scalabrini).

A difícil realidade fez com que somente a partir de 1910 o sonho começasse a se concretizar. Naquele ano, na cidade de Caxias do Sul, Pe. Cármine Fasulo fundou um jornal católico, o La Libertà, o qual, devido aos conflitos com autoridades caxienses ligadas à maçonaria, teve curta duração. Impressora e jornal foram comprados por Pe. João Fronchetti que transferiu o jornal para Garibaldi e mudou o nome para Il Colono Italiano. Para que o Pe. Fronchetti pudesse se dedicar ao jornal, os freis assumiram o trabalho pastoral nas capelas da paróquia e colaboravam com o jornal que começou assim a realizar o sonho de evangelizar e educar através da imprensa. Em 1917 os capuchinhos adquiriram a tipografia e o controle da redação do jornal Il Colono Italiano, que passou a ser propriedade exclusiva dos frades e ganhou o nome de Stafetta Riograndense. A partir da edição de 10 de setembro de 1941 e por força da lei de nacionalização, tornou-se o Correio Riograndense.

  1. A implantação da Ordem no Rio Grande do Sul

Além das diferentes atividades missionárias, os freis franceses preocuparam-se com a instalação da Ordem. Após receber aprovação do Definitório de Saboia, em 18 de junho de 1898, na casa doada pelo Pe. Tiecher, foi instalada a primeira escola seráfica no estado. O objetivo era acolher filhos de imigrantes que quisessem se tornar missionários. O primeiro grupo a ingressar na escola seráfica era de 14 jovens e só não foi mais por falta de espaço e de recursos para a manutenção.

Em 1902, para dar lugar aos estudantes franceses que retornavam de Vespasiano Correa, os jovens brasileiros foram transferidos para Veranópolis que se tornou a casa de acolhida dos novos vocacionados. O grande número de filhos dos colonos  a fascinação exercida sobre a população local pelos missionários que, sem trégua nem cansaço, se entregavam ao atendimento da população, fizeram com que as vocações fossem abundantes. em pouco tempo, o número de frades franceses foi superado pelo de frades nascidos no Brasil. Pouco a pouco, estes passaram a assumir responsabilidades tanto na formação como na atividade missionária e na administração da missão.

Em 1924, por ocasião da Visita Canônica do Ministro Provincial da França, Frei Alfred de Saint Jean d’Arves, o Comissariado contava com 3 conventos, 3 residências, 5 paróquias, um jornal, uma Escola Seráfica com 37 aspirantes, 45 sacerdotes, dos quais 12 franceses, 12 clérigos professores, 10 irmãos religiosos e 4 noviços. Em 1939 o Comissariado foi elevado à condição de Custódia e, em 24 de julho de 1942, foi criada a Província de Caxias do Sul.

 

  1. Presença capuchinha no Brasil colônia e no império

A primeira presença capuchinha no Brasil da qual se tem registro deu-se junto a movimentos de contestação do domínio colonial português. No ano de 1612, acompanhando os franceses que se instalaram no Maranhão, capuchinhos franceses da Bretanha iniciaram uma missão junto aos índios da região. Em 1615, com a expulsão dos franceses, também partiram os capuchinhos.

Em 1642, durante a ocupação holandesa no Nordeste, frades franceses da Província da Bretanha são deslocados da Guiné para Olinda. Em 1650, a pedido de Dom João IV, capuchinhos franceses também instalaram-se no Rio de Janeiro.

A partir da metade do séc. XVII, capuchinhos italianos a caminho do Congo passavam regularmente por Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. No ano de 1712, um convento é fundado na Bahia, em 1721 no Rio de Janeiro e em 1725 em Pernambuco. Sob a administração da “Propaganda Fide”, a principal ocupação dos capuchinhos é o atendimento pastoral dos europeus dispersos pelos sertões e o aldeamento indígena. No fim do séc. XVIII, durante a crise pombalina, os capuchinhos são forçados a deixar a colônia.

A presença dos capuchinhos durante o período imperial foi afetada pelas oscilações dos interesses políticos em jogo. Animado pelo incansável trabalho de Frei José Maria de Macerata junto aos indígenas do Mato Grosso e preocupado com a situação de abandono das populações indígenas resultante da expulsão dos jesuítas, Dom Pedro I autoriza o ingresso de missionários capuchinhos para se estabelecerem na corte, em Pernambuco e nas demais províncias onde houvesse necessidade de evangelização de gentios. O período de regência do Pe. Antônio Feijó (1831-1837) marca um refluxo na presença capuchinha. Em 25 de agosto de 1831, o regente expulsa os capuchinhos italianos de Pernambuco e confisca todos os seus bens.

Uma nova fase da presença capuchinha no Brasil se inicia em 1840 sob a regência de Araújo Lima que solicita à Santa Sé o envio de missionários capuchinhos. Um primeiro grupo chega em setembro do mesmo ano. Pregação de missões populares, evangelização dos indígenas e presença junto à corte são as atividades principais a que se dedicam os capuchinhos no segundo império. No exercício desta última atividade, os capuchinhos serão chamados a intervir na pacificação dos conflitos regionais e para a capelania das tropas durante a guerra contra o Paraguai. Rio de Janeiro e Recife são, no segundo império, os dois grandes centros irradiadores da presença capuchinha. De norte a sul do Brasil, a presença dos frades é solicitada e estimada como fundamental para a reforma da igreja e o soerguimento da fé e da moral do povo.

 

  1. Capuchinhos no Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, a primeira presença estável de capuchinhos com a conformação de uma comunidade acontece na Vila do Estreito, próximo a Rio Grande, entre os anos de 1737 e 1742. Os primeiros dois a chegar foram os freis Anselmo de Castelvetrano e Antônio de Perugia. Eles vieram na expedição do comandante Silva Paes que veio fundar um forte para defender a entrada da Lagoa dos Patos dos ataques dos castelhanos.

 

Devido aos constantes conflitos com Silva Paes, os dois regressam ao Rio de Janeiro em 1738. Para substituí-los chegam Mariano de Piano e Sebastião de Pallenza ou de Milão que permanecem até 1742 e mantém boas relações com os militares e o pároco. Além de atender os militares, os frades ensaiam, sem grande resultado, o aldeamento dos indígenas dispersos na região.

 

Ainda no séc. XVII, de 1781 a 1782 os freis Fernando de Piacenza e Marcelo de Gradisca pregaram missões populares na região fronteiriça aos territórios castelhanos. Em 1804 e 1805 Frei Urbano de Bastia também missionou na fronteira. Entre os anos de 1834 e 1850, na Igreja de São José do Patrocínio (Amaral Ferrador), atuou como Cura e depois Pároco, Frei Nicolau de Gênova. Em 1861, frei Caetano de Troina, oriundo do convento do Rio de Janeiro, assume a capelania da Igreja do Menino Deus, em Porto Alegre. No ano de 1865 atua como vigário em Jaguarão para retornar no ano seguinte a Porto Alegre onde permanece até 1881 quando retorna ao Rio de Janeiro.

 

Por Frei Vanildo Zugno