01Mês do Sagrado Coração de Jesus

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus foi sempre muito especial aos franciscanos, a exemplo de São Francisco de Assis, inflamado de seráfico amor por Jesus. Seu coração ardia de amor pelo coração do Mártir Crucificado.

Escreveram e falaram do Coração de Jesus: São Boaventura, Santo Antônio de Pádua, São Bernardino de Sena e muitos outros santos franciscanos.

A festa do Sagrado Coração de Jesus é complemento da do Corpo e Sangue de Cristo, reunindo todos os mistérios de Jesus em um só, que materialmente é o coração de carne de Jesus, espiritualmente quer expressar os infinitos tesouros do amor.

É a festa do amor de Deus para conosco. A Igreja celebra a Festa do Sagrado Coração de Jesus na sexta-feira da semana seguinte à Festa de Corpus Christi. O coração é mostrado na Escritura como símbolo do amor de Deus. No Calvário o soldado abriu o lado de Cristo com a lança (Jo 19,34). Diz a Liturgia que “aberto o seu Coração divino, foi derramado sobre nós torrentes de graças e de misericórdia”. Jesus é a Encarnação viva do Amor de Deus, e seu Coração é o símbolo desse Amor. Por isso, encerrando um conjunto de grandes Festas (Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Santíssima Trindade, Corpus Christi), a liturgia nos leva a contemplar o Coração de Jesus.

Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, de Frei Giuliano Ferrini e Frei José Guillermo Ramirez, OFM, edição Porziuncola 

02Bem-aventurado João Pelingotto

Penitente da Terceira Ordem (1240-1304). Aprovou seu culto Bento XV no dia 13 de novembro de 1918

 

João Pelingotto nasceu em Urbino em 1240, filho de um rico mercador de telas que bem cedo, contra a sua vontade, teve de dedicar-se livremente aos exercícios de piedade. Aos onze anos já o havia iniciado no comércio.

Vestiu o hábito da Terceira Ordem da Penitência na Igreja de Santa Maria dos Anjos, a primeira igreja franciscana de Urbino, e como fiel imitador do Seráfico Pai, vivia austeramente. O amor pelos pobres o movia a privar-se ainda do necessário para socorrê-los; humilde, ao cair na conta de que seus concidadãos o tinham em grande estima, para despistá-los se fez louco. Mas quanto mais procurava ocultar-se, mais manifestava Deus suas virtudes.

Em 1300 foi a Roma para ganhar o jubileu decretado por Bonifácio VIII. Era a primeira vez que ia à Cidade Eterna e não era conhecido por ninguém. Contudo, um desconhecido, ao encontrar-se com ele, indicou-o a seus companheiros, dizendo: “Não é este aquele santo homem de Urbino?”. Outros vários fatos manifestaram claramente que o Senhor queria fazer conhecer sua santidade. De regresso à sua cidade natal, intensificou sua vida espiritual desejando ardentemente a pátria celestial. Foi atacado por uma gravíssima doença que o reduziu de imediato às últimas, e o fez perder até a fala, que recuperou completamente só nos últimos dias de sua vida terrena. Soube ser imitador do Seráfico Pai, inclusive na dor.

O demônio não cessava de importuná-lo com horríveis tentações a este penitente que sempre procurou guardar intata a pureza de sua alma. Andava repetindo: “Por que me molestas? Por que me joga na cara coisas que nunca cometi e nas quais nunca consenti?”. E abandonando-se nos braços da misericórdia divina, com voz forte, disse: “E agora, vamos com toda confiança!”. Um dos presentes disse: “Pai, onde vais?”. “Ao Paraíso!”, respondeu. Dito isto, seu rosto se iluminou, seus membros se distenderam e, pouco depois, expirou serenamente. Era o primeiro de junho de 1304; tinha 64 anos de idade.

João havia pedido que o sepultassem na Igreja de São Francisco, mas num primeiro tempo não se cumpriu sua vontade: teve solenes funerais e foi sepultado num cemitério franciscano, no claustro do convento. Deus glorificou rapidamente a seu fiel servidor. Tantas foram as graças que se diziam obtidas por sua intercessão, tantas eram as visitas a seu túmulo que os irmãos exumaram seus restos e os levaram à igreja de São Francisco. Aumentando-se os prodígios, erigiu-se um altar sobre seu túmulo, onde se celebraram missas em sua honra. Seu culto continuou através dos séculos.

Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, de Frei Giuliano Ferrini e Frei José Guillermo Ramirez, OFM, edição Porziuncola 

03Bem-aventurado André de Spello

Sacerdote e discípulo de São Francisco, da Primeira Ordem (1194-1254). Aprovou seu culto Clemente XII no dia 25 de julho de 1738.

 

André Caccioli nasceu em Spello, na Úmbria, em 1194. Logo, ele abraçou a vida eclesiástica e tornou-se padre. Em 1223, quis seguir a São Francisco e se tornou seu discípulo ao entrar na Ordem dos Frades Menores. De São Francisco imitou principalmente o espírito de pobreza, e em 3 de outubro de 1226 teve a sorte de assistir à gloriosa transição do Seráfico Pai. Em 1233, ele estava na Espanha, onde participou do capítulo de Soria e obteve com suas orações uma chuva providencial para aquela terra afetada por uma seca prolongada. O mesmo milagre fez em Spello.

Também viveu no eremitério do Carceri em Assis, em grande penitência e austeridade. Tinha preocupação em contemplar as coisas celestiais, para as quais ele já estava próximo. As horas livres para a fraternidade ele passava numa caverna, separado do resto do mundo, dedicando-se unicamente à oração. Várias vezes ele foi favorecido com aparições celestiais e seu espírito provou de uma doçura indescritível. Um dia, Jesus apareceu para ele como uma criança, radiante com a beleza. As conversas eram agradáveis quando a campainha tocou, chamando-o para o ofício religioso das Vésperas. André, em espírito de obediência, parou a conversa para juntar a seus confrades. Terminado o ofício, ele regressou para o seu retiro e, com grande alegria, encontrou o menino Jesus, que lhe disse: “Você fez bem em obedecer: vou chamá-lo logo para mim!”. Era o feliz anúncio de sua morte que se aproximava.

Em 1248, ele voltou ao convento de Santo André, em Spello, onde foi responsável pela direção espiritual das Clarissas. Pediu e obteve de Santa Clara a indicação para Abadessa de Spello a bem-aventurada Pacifica Guelfuccio, tia e uma das primeiras discípulas ilustres de Santa Clara. Com a ajuda e conselhos do Beato André a comunidade das Damas Pobres da Senhora Pobreza aumentou em número e fervor, renunciaram à Regra mitigada do Cardeal Ugolino para acompanhar a de São Francisco para as primeiras religiosas amantes da pobreza. Assim, o mosteiro de Spello tornou-se logo uma das casas mais florescentes da Ordem.

Em Spello, André esperou sereno o convite para voltar à pátria celeste. Cheio de méritos e glorioso por seu ardente apostolado no meio das pessoas do povo, pela pregação de muitos anos, recebeu com edificante piedade os últimos sacramentos, e dormia placidamente no Senhor em 3 de junho de 1254, aos 60 anos idade. As antigas crônicas franciscanas o chamam de máximo pregador e taumaturgo, recordam a sua caridade e obediência exemplares. Foi eleito copadroeiro da cidade em 1360.

Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, de Frei Giuliano Ferrini e Frei José Guillermo Ramirez, OFM, edição Porziuncola

04Bem-aventurado Pacífico de Cerano

Sacerdote da Primeira Ordem (1424-1482). Aprovou seu culto Bento XIV no dia 7 de julho de 1745

 

Pacífico Ramati nasceu no ano de 1424 em Cerano, na cidade de Novara, Itália. Muito cedo ficou órfão dos pais, sendo educado e formado pelo Superior dos beneditinos do Mosteiro de São Lorenzo de Novara.

Após a morte do seu benfeitor beneditino, ele decidiu seguir a vida religiosa, mas preferiu ingressar para a Ordem dos Frades Menores, no convento de São Nazário, dos ilustres João Capristano e Bernardino de Siena, hoje ambos santos da Igreja. Em 1444, com vinte e um anos de idade e no ano da morte de São Bernardino, tomou o hábito franciscano. Em seguida foi enviado para completar os estudos à Universidade de Sorbonne, em Paris, regressando para a Itália com o título de Doutor.

Desde então, dedicou-se à pregação e percorreu inúmeras regiões da Itália entre os anos de 1445 e 1471, com tal êxito que era considerado “um novo São Bernardino”. O seu apostolado era combater a ignorância religiosa, tanto entre os leigos como no meio do clero, especialmente em relação ao Sacramento da Penitência. E não se contentou apenas com as pregações verbais. Escreveu com competência e clareza a “Suma Pacífica da Consciência”, publicada em 1474 na linguagem popular, para que todos tivessem acesso, fato raro e uma ousadia para a época.

Pacífico amava a sua cidade natal, visitando-a sempre que podia, por isto mandou construir uma igreja em homenagem à Virgem para aumentar a devoção à Mãe de Deus. Entretanto, a sua principal ocupação foi com a pregação do Evangelho através de uma retórica veemente e clara, na qual se tornou famoso.

Este foi um período de maravilhosa florescência, para a Ordem franciscana com os conventos se multiplicando, não somente na península italiana, mas também nas ilhas da Sicília e Sardenha. Como visitador e comissário geral da Ordem, Pacífico teve a tarefa de peregrinar por todos eles, como pregador da paz e do Evangelho de Cristo. Em 1471, o Papa Xisto IV o enviou em missão à Sardenha e depois, outra vez em 1480, durante a invasão dos árabes muçulmanos, a fim de organizar uma Cruzada especial para expulsá-los.

Nesta ocasião, Pacífico sentiu que não tinha muito tempo de vida. De fato, logo no início da Cruzada caiu gravemente enfermo. Não resistindo, morreu, aos 58 anos, no dia 4 de junho de 1482, em Sassari, na Sardenha, longe de sua querida cidade natal. Porém, foi sepultado na igreja franciscana de Cerano, atendendo o desejo que expressara em vida.

O Papa Bento XIV, o beatificou em 1746, indicando o dia 8 de junho para sua festa litúrgica. Beato Pacífico de Cerano é considerado pelos teólogos “insigne por sua doutrina e santidade, consolo e protetor de sua pátria”.

Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, de Frei Giuliano Ferrini e Frei José Guillermo Ramirez, OFM, edição Porziuncola .

05Bem-aventurado Zeferino Gimenez Malla

(1861-1936). Mártir da Terceira Ordem Franciscana. Beatificado por João Paulo II no dia 4 de maio de 1997

 

Zeferino Gimenez Malla nasceu na Catalunha, Espanha, aos 26 de agosto de 1861. Descendia do povo cigano daquela localidade, que chamava o menino de “El Pelé”. A família vivia na pobreza, que se intensificou quando o pai a abandonou, para ficar com outra mulher. Por isso, Zeferino não pôde ir à escola, precisou ajudar no sustento da casa, confeccionando e vendendo cestas de vime. Quando completou vinte anos, se transferiu para Barbastro e ali se casou com Teresa Gimenez Castro, ao modo cigano, sem rito religioso. O casal não pôde ter filhos, então resolveu adotar Pepita, uma sobrinha de Teresa.

Zeferino não tinha uma profissão fixa, era habilidoso com cavalos e mulas, mas se tornou um comerciante autônomo depois de um episódio que encantou toda Barbastro. Um homem tuberculoso, vertendo sangue contaminado pela boca, estava agonizando na estrada. Todos tinham receio de ajuda-lo, afinal, a tuberculose era extremamente contagiosa. Porém, isto não intimidou Zeferino que o ajudou prontamente, abrigando-o em sua casa, tratou de sua doença. Quis o destino que a família daquele homem fosse uma das mais poderosas do local, que gratificou muito bem Zeferino pela sua boa ação. Com este dinheiro ele iniciou um pequeno negócio que rapidamente prosperou.

Ele acabou enriquecendo, mas, mesmo assim, continuou praticando sua caridade. Com o sangue nômade nas veias, passou a pregar pelas estradas, munido do Rosário. Socorria aos mais pobres, especialmente os ciganos, seus irmãos de sangue. Porém, para ele todos eram o “próximo”, tornando-se a razão de sua existência e de seu trabalho caridoso.

Cristão, devoto da Virgem Maria e da Eucaristia, frequentava a Santa Missa todos os dias, na qual fazia questão de receber a comunhão. Zeferino oficializou seu casamento pelo rito católico, em 1912. Nesta ocasião passou a frequentar a “Quarta-feira Eucarística”, da Ordem Terceira de São Francisco. Quando então todos os religiosos reconheceram naquele comunicativo cigano um grande modelo de virtude e santidade. Empenhou-se com grande generosidade nas Conferências de São Vicente de Paulo, porque desejava tornar sua caridade mais eficiente. Mesmo sendo analfabeto, também se dedicava à catequese das crianças, ciganas ou não. Era muito querido por elas, pois, conhecendo muitas passagens da Bíblia ele as contava com especial inspiração.

Em 1936 explodiu a guerra civil espanhola. No dia 02 de agosto deste ano, Zeferino foi preso ao tentar libertar um padre que era prisioneiro de um grupo anarquista. Tinha então setenta e cinco anos de idade. Mesmo sob a mira das armas, Zeferino protestou de cabeça erguida. Todos puderam ouvir seu último grito, brandindo o Rosário, seu companheiro, antes do fuzilamento: “Viva Cristo Rei!”.

Por ordem dos rebeldes, todos os fuzilados foram enterrados numa cova coletiva. Dentre eles estava Zeferino, cujo corpo nunca pôde ser encontrado. Em 1997, numa bela cerimônia solene celebrada pelo Papa João Paulo II, em Roma, na presença de milhares de ciganos cristãos do mundo todo, Zeferino Gimenez Malla foi declarado Beato. Assim, ele se tornou o primeiro cigano a ser elevado aos altares pela Igreja, cuja festa foi marcada para o dia de sua morte.

06Bem-aventurado Lourenço de Villamagna

Sacerdote da Primeira Ordem (1476-1535). Aprovou seu culto Pio XI no dia 28 de fevereiro de 1923.

 

O Bem-aventurado Lourenço nasceu em Villamagna, província de Chieti, filho dos nobres Silverio de Mascoli e de Pippa D´Eletto, no dia 12 de maio de 1476.

Ingressou muito jovem no convento franciscano de Santa Maria da Graça, perto de Ortona, e depois de sua ordenação tornou-se um dos maiores pregadores da época. Distinguiu-se pela oração constante e pelo amor divino, do qual era inflamado.

Como pregador e profundo teólogo, apresentou-se em quase todos os púlpitos importantes da Itália. Costumava flagelar-se severamente antes de fazer os seus sermões, que eram tão arrebatadores, que muitas vezes ele e toda a assistência desfaziam-se em lágrimas.

Caminhava sempre a pé e descalço em suas longas viagens por todas as partes da Itália. Um dia, enquanto pregava, inspirado pelo Senhor, exclamou com espírito profético: “Dentro de quinze dias estarei na eternidade, eu em primeiro lugar e depois me seguirão outros de vocês”. Efetivamente depois de alguns dias, foi cometido de fortes dores por causa de uma gota que obrigou a suspender as suas pregações e ficar em repouso. Purificado pela dor, que suportou pacificamente, morreu em Ortona, aos 6 de junho de 1535, aos 59 anos. Seu corpo, depois de alguns anos, foi encontrado incorrupto. Em 1829 foi colocado sob o altar da igreja franciscana de Santa Maria da Graça.

Parece que não se conhece muita coisa a respeito de Lourenço de VilJamagna. “A Vita del Beato Lorenzo da Villamagna”, escrita pelo padre Giacinto d’Agostino (1923), contém extraordinariamente muito pouco com relação aos fatos históricos. Vejam-se também Mazzara, Leggendario Francescano (1676), vol. r, p. 679; Acta Ordinis Fratrum Minorum, 1906, p. 127-130; 1924, p. 21-24; e o decreto da contirmatio cultus [confirmação do culto] em Acta Apostolicae Sedis, vol. XV (1923), p. 170-173. 

07Bem-aventurado Diego Oddi

Religioso da Primeira Ordem (1839-1919). Beatificado por João Paulo II no dia 3 de outubro de 1999 (festa no dia 6 de junho)

 

Diego Oddi nasceu em Vallinfreda (Roma) a 6 de Junho de 1839, no seio de uma família pobre e muito religiosa. Durante uma peregrinação ao Retiro de São Francisco, em Bellegra, ficou impressionado com o lugar e a vida santa que levavam os frades que ali viviam. Alguns anos mais tarde, lembrando-se sempre da experiência vivida naquela visita ao convento franciscano, o jovem Diego retornou àquele lugar para pedir conselho a Frei Mariano, famoso religioso naquela época e hoje também beatificado. As palavras simples desse humilde porteiro do convento impressionaram- no a tal ponto, que Diego resolveu pensar a sério na sua vocação e aumentou o tempo de oração, entregando-se aos desígnios de Deus.

Entrou no Retiro de Bellegra em 1871, superando a resistência dos seus pais. Foi acolhido como simples «terceiro oblato» e, em 1889, pronunciou os votos solenes. Durante quarenta anos percorreu os caminhos de Subiaco, pedindo esmola. Analfabeto, mas arguto e com facilidade de dialogar, surpreendia a todos com as suas palavras, brotadas de um coração habituado a pronunciá-las nos colóquios com Deus. Quando o sino indicava o silêncio da noite, Diego permanecia na capela a falar com o Senhor, e esse colóquio prolongava-se durante toda a noite, sabendo haurir desse momento de graça a sabedoria da fé e a força para a fidelidade ao espírito franciscano.

A sua vida foi feita com nada de extraordinário, e por isso esta simplicidade, unida à austeridade e penitência, produzia grandes frutos de aperfeiçoamento cristão em quantos se encontravam com ele.

Morreu a 3 de Junho de 1919, tendo consagrado totalmente a vida a Deus, pondo em prática a vontade dos superiores e sabendo interpretar os eventos quotidianos como sinais daquilo que Deus lhe pedia.

O Papa João Paulo II, quando beatificou também o Beato Mariano de Roccacasale, disse sobre este franciscano: “A mesma espiritualidade franciscana, centrada numa vida evangelicamente pobre e simples, distingue Frei Diego Oddi, que hoje contemplamos no coro dos Beatos. Na escola de São Francisco, ele aprendeu que nada pertence ao homem a não ser os vícios e os pecados e que tudo o que a pessoa humana possui, na realidade é dom de Deus” (cf. Regra não selada XVII, em Fontes Franciscanas, 48). Desta forma aprendeu a não se angustiar inutilmente, mas a expor a Deus “orações, súplicas e agradecimentos” por todas as necessidades, como escutámos do apóstolo Paulo na segunda Leitura (cf. Fl 4, 6). Durante o seu longo serviço de esmoleiro, foi autêntico anjo de paz e bem para todas as pessoas que o encontravam, sobretudo porque sabia ir ao encontro das necessidades dos mais pobres e provados. Com o seu testemunho jubiloso e sereno, com a sua fé genuína e convicta, com a sua oração e o seu incansável trabalho o Beato Diego indica as virtudes evangélicas, que são a via-mestra para alcançar a paz”.

08Bem-aventurado Nicolás de Gésturi - Capuchinho

Religioso da Primeira Ordem (1882-1958). Beatificado por João Paulo II no dia 3 de outubro de 1999.

 

Em Gésturi, cidadezinha Sardenha, Itália, com aproximadamente 1.500 habitantes, nasceu, no dia 4 de agosto de 1882, João Ângelo Salvador, filho de pais de posses modestas, mas religiosos.

João era o quarto dentre cinco irmãos. Perdeu o pai aos cinco anos, e quando tinha treze, faleceu a mãe. Por isso, foi aceito como empregado não assalariado por um cidadão de razoáveis posses, sogro da sua irmã Rita, permanecendo aí mesmo após a morte deste seu parente. Curando-se de grave doença reumática, em março de 1911, vai a Cágliari, ao convento Santo Antônio, para ser aceito como religioso capuchinho.

Traz a recomendação do seu pároco, Pe. Vicente Albana, em que diz ter se entristecido com a partida do jovem de sua paróquia onde sempre fora de edificação para todos, não só pela sua piedade, mas também pela sua vida ilibada e pela austeridade de seus costumes. Veste o hábito capuchinho no dia 30 de outubro de 1913 e troca seu nome de batismo pelo de religioso, Nicolau de Gésturi, nome pelo qual será definitivamente conhecido na ilha de Sardenha, iniciando assim o seu noviciado.

Depois de oito meses, foi transferido para Sanluri, onde continuou o noviciado. Emitiu sua primeira profissão no dia 1º de novembro de 1914, confirmando sua consagração total a Deus no dia 16 de fevereiro de 1919 com a profissão perpétua. O primeiro trabalho como recém-professo é na cozinha do convento de Sassari, na Sardenha.

Embora tentasse exercer com capricho seu encargo, não conseguia agradar a muitos. Foi transferido para Oristano, depois para Sanluri onde fizera o segundo momento do seu noviciado. Por fim, os superiores o enviaram para a capital da Sardenha, que será definitivamente o seu lugar, onde viverá a humildade e a obediência.

Ali ele irá esmolar, batendo às portas, para o sustento dos freis que trabalhavam na pregação, ou atendiam outras urgências apostólicas. Frei Nicolau assumiu, como referência para sua vida e serviço fraterno de esmoleiro, a Santo Inácio de Láconi que vivera justamente naquele mesmo convento uns 150 anos antes.

Ao longo de 34 anos, como testemunha silencioso, percorre as estradas a pé, sobe e desce pelas ruelas dos bairros de Castelo e Vilanuova, vai às vilas vizinhas de Campidano, para depois percorrer em todos os sentidos as ruas de Cágliari. Para de caminhar apenas quando encontra pela frente a irmã morte corporal, às 0h15m de 8 de junho de 1958. Foi beatificado por João Paulo II aos 3 de outubro de 1999.

12Bem-aventurado Guido de Cortona

Sacerdote da Primeira Ordem (1190-1250). Seu culto e missa foram concedidos por Gregório XIII em 1583

 

Nascido em Cortona em torno de 1187, talvez da família nobre dos Vagnotelli,  durante o tempo da juventude pôde estudar, adquirindo boa cultura o que lhe facilitou mais tarde o acesso ao sacerdócio.  Não possuímos muitas informações a respeito de sua vida,  mas é certo que, como diz Wadding, Guido foi recebido na Ordem pelo próprio São Francisco em 1211. Pelo santo fundador, o piedoso jovem, que já se exercitara na oração e na ajuda aos pobres, foi aconselhado a distribuir todos os seus bens aos pobres e deixar o mundo. Assim recebeu o hábito da pobreza na igreja de  Santa Maria de Cortona.

Viveu boa parte de sua vida em eremitério não muito distante da cidade  cultivando mais intensamente a vida de piedade e de mortificação. Naquele lugar foi  construído um conventinho conhecido como “Le Celle” (foto acima) , um dos primeiros da Ordem Franciscana.

Uma vez ordenado sacerdote, passou algum tempo em Assis com Francisco, do qual obteve a licença de entregar-se à pregação. Este ministério executou com muito zelo e produziu abundantes frutos. Foi também contemplado com o dom dos milagres.  Por tudo isso, já em vida, Guido gozou de grande fama de santidade, sobretudo depois que Francisco passou por Cortona, elogiou seu confrade e pediu que os habitantes da cidade se confiassem à sua oração.

Por esta razão, depois de sua morte, acontecida a 12 de junho de 1247, em torno de seu sepulcro floresceram graças e milagres  favorecendo a todos os que buscavam  sua intercessão.

Seus despojos, conservados íntegros,  em 1258  por causa da invasão aretina sofrida pela cidade foram levados para Santa Maria de Cortona e colocados num digno sarcófago romano.  Nunca se soube com certeza o que aconteceu com este sarcófago.

Gregório XIII, em 1583, confirmou o culto ao bem-aventurado Guido somente para a cidade de Cortona. Inocêncio XII o estendeu  a toda a Ordem Franciscana. Guido foi lembrado por Pio  XII em 1947 por ocasião do VII centenário de sua morte.

(Tradução livre e adaptada da obra  Frati Minori Santi e Beati, publicação pela Postulação Geral da Ordem dos Frades Menores, 2009, p. 49-50)

12Bem-aventurada Florida Cevoli (Lucrécia Helena)

Virgem da Segunda Ordem (1685-1767). Beatificada por João Paulo II no dia 16 de maio de 1993.

 

De nobre família, nasceu em Pisa a 11 de novembro de 1685. Filha do Conde Cúrcio Cévoli e da condessa Laura Della Seta. Foi batizada com o nome de Lucrécia Helena. Estudou com as Clarissas no Mosteiro São Martinho, em Pisa, onde nasceu o desejo da vida religiosa.

Aos dezoito anos, ingressou no Mosteiro de Clarissas Capuchinhas de Città di Castelo, e no ano de 1703 fez sua vestição, recebendo o nome de Flórida. Sua mestra foi Santa Verônica Giuliani. Demonstrou grande espírito de oração e intenso desejo de progredir na vida contemplativa e o demonstrou pela disponibilidade em cumprir qualquer trabalho: na cozinha, despensa, fazendo pão, tornando-se responsável pela farmácia do mosteiro, serviço que exerceu toda a vida.

Em 1716 foi eleita vigária, era abadessa Verônica e aos quarenta e dois anos foi abadessa, cargo que assumiu até a morte (1767), com alguns anos de intervalos. Ela soube renovar o fervor religioso na comunidade: intensificou os atos de piedade e a comunhão sacramental durante a semana, zelou pela vida contemplativa cuidando do silêncio e da clausura. Favoreceu a pobreza e austeridade ao mesmo tempo em que alimentou o clima evangélico de fraternidade com o trato comum e respeitoso que abolia os títulos e fazia todas se sentirem irmãs.

Com seu senso prático da vida e com as boas maneiras de governar, soube concretizar os valores sobrenaturais em todos os atos do cotidiano. Nutriu devoção à Virgem das Dores, ao Anjo da Guarda, e confiou na proteção de São Francisco e de Santa Clara; sentia-se unida às almas do purgatório, exercitava-se continuamente na purificação interior. Desde jovem, pedia a Deus para não sentir gosto pelas coisas terrenas e saber renunciar à própria vontade. Sua caridade foi ativa e generosa com suas irmãs, com os pobres que batiam às portas do mosteiro e com algumas famílias que sabia estarem em dificuldades.

Sua correspondência era vasta e atingia todas as categorias sociais. A pedido do Pe. Inocêncio Cappelletti, confessor da comunidade, escreveu quatro cadernos sobre sua vida, rica de comunicações místicas. Após o falecimento deste, fez tudo para reavê-los, e quando os pode ter em mãos, jogou-os no fogo. Sofreu internamente angústias de espírito e externamente, com misteriosas doenças corporais, febres altíssimas, dores que martirizavam sua face impedindo-lhe até de falar.

Recebeu as cinco chagas como Santa Verônica, mas ao dar-se conta disso, pediu a Deus que no lugar da coroa de espinhos, chagas nos pés e nas mãos, tivesse algum sofrimento interno e foi atendida com uma impertinente herpes que cobriu todo seu corpo ao longo de vinte anos até à morte, manifestando o grande ímpeto de amor com estas palavras: “Ajudai-me a amar a Deus! Ajudai-me a amá-lo!” Seu confessor, que a acompanhou durante a última doença, comentou: “Morreu de puro amor de Deus”. Destacou-se por seu espírito de oração e responsabilidade. Morreu  a 12 de junho em 1767. Foi beatificada em maio de 1993 pelo Papa João Paulo II. Sua festa é celebrada no dia 12 de junho.

13Santo Antônio de Pádua e Lisboa

Sacerdote, doutor Evangélico da Primeira Ordem (1191-1231). Canonizado por Gregório IX no dia 30 de maio de 1232

 

Antônio de Pádua ou – como também é conhecido – de Lisboa, referindo-se à sua cidade natal. Trata-se de um dos santos mais populares de toda a Igreja Católica, venerado não somente em Pádua, onde se erigiu uma esplêndida basílica que recolhe seus restos mortais, mas no mundo inteiro. São queridas dos fiéis as imagens e estátuas que o representam com o lírio, símbolo da sua pureza, ou com o Menino Jesus nos braços, lembrando uma aparição milagrosa mencionada por algumas fontes literárias.

Antônio contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, com seus fortes traços de inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e, principalmente, fervor místico.

Ele nasceu em Lisboa de uma família nobre, por volta de 1195, e foi batizado com o nome de Fernando. Começou a fazer parte dos cônegos que seguiam a regra monástica de Santo Agostinho, primeiro no mosteiro de São Vicente, em Lisboa, e depois no da Santa Cruz, em Coimbra, renomado centro cultural de Portugal. Dedicou-se com interesse e solicitude ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja, adquirindo aquela ciência teológica que o fez frutificar nas atividades de ensino e na pregação.

Em Coimbra, aconteceu um fato que marcou uma mudança decisiva em sua vida: em 1220, foram expostas as relíquias dos primeiros cinco missionários franciscanos que haviam se dirigido a Marrocos, onde encontraram o martírio. Este acontecimento fez nascer no jovem Fernando o desejo de imitá-los e de avançar no caminho da perfeição cristã: então ele pediu para deixar os cônegos agostinianos e converter-se em frade menor. Sua petição foi acolhida e, tomando o nome de Antônio, também ele partiu para Marrocos, mas a Providência divina dispôs outra coisa.

Por causa de uma doença, ele se viu obrigado a voltar à Itália e, em 1221, participou do famoso “Capítulo das Esteiras” em Assis, onde também encontrou São Francisco. Depois disso, viveu por algum tempo escondido totalmente em um convento perto de Forlì, no norte da Itália, onde o Senhor o chamou para outra missão. Convidado, por circunstâncias totalmente casuais, a pregar por ocasião da uma ordenação sacerdotal, Antônio mostrou estar dotado de tal ciência e eloquência, que os superiores o destinaram à pregação. Ele começou assim, na Itália e na França, uma atividade apostólica tão intensa e eficaz, que levou muitas pessoas que haviam se separado da Igreja a voltar atrás. Esteve também entre os primeiros professores de teologia dos Frades menores, talvez inclusive o primeiro. Começou a lecionar em Bolonha, com a bênção de Francisco, o qual, reconhecendo as virtudes de Antônio, enviou-lhe uma breve carta com estas palavras: “Eu gostaria que você lecionasse teologia aos frades”. Antônio colocou as bases da teologia franciscana que, cultivada por outras insignes figuras de pensadores, teria conhecido seu zênite com São Boaventura de Bagnoregio e o beato Duns Scotus.

Nomeado como superior provincial dos Frades Menores da Itália Setentrional, continuou com o ministério da pregação, alternando-o com as tarefas de governo. Concluído o mandato de provincial, retirou-se perto de Pádua, onde já havia estado outras vezes. Depois de apenas um ano, morreu nas portas da Cidade, no dia 13 de junho de 1231. Pádua, que o havia acolhido com afeto e veneração em vida, prestou-lhe sempre honra e devoção. O próprio Papa Gregório IX – que, depois de tê-lo escutado pregar, definiu-o como “Arca do Testamento” – canonizou-o em 1232, também a partir dos milagres ocorridos por sua intercessão.

No último período da sua vida, Antônio escreveu dois ciclos de “Sermões”, intitulados, respectivamente, “Sermões dominicais” e “Sermões sobre os santos”, destinados aos pregadores e professores de estudos teológicos da ordem franciscana. Neles, comentou os textos da Sagrada Escritura apresentados pela liturgia, utilizando a interpretação patrístico-medieval dos quatro sentidos: o literal ou histórico, o alegórico ou cristológico, o tropológico ou moral e o analógico, que orienta à vida eterna. Trata-se de textos teológicos-homiléticos, que recolhem a pregação viva, na qual Antônio propõe um verdadeiro e próprio itinerário de vida cristã. É tanta a riqueza de ensinamentos espirituais contida nos “Sermões”, que o venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou Antônio como Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de “Doutor Evangélico”, porque destes escritos surge a frescura e beleza do Evangelho; ainda hoje podemos lê-los com grande proveito espiritual.

Nos “Sermões”, ele fala da oração como uma relação de amor, que conduz o homem a conversar docemente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que envolve suavemente a alma em oração. Antônio nos recorda que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio, que não coincide com o afastamento do barulho externo, mas é experiência interior, que procura evitar as distrações provocadas pelas preocupações da alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração se compõe de quatro atitudes indispensáveis que, no latim de Antônio, definem-se como: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las assim: abrir com confiança o próprio coração a Deus, conversar afetuosamente com Ele, apresentar-lhe as próprias necessidades, louvá-lo e agradecer-lhe.

Neste ensinamento de Santo Antônio sobre a oração, conhecemos um dos traços específicos da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel designado ao amor divino, que entra na esfera dos afetos, da vontade, do coração, e que é também a fonte de onde brota um conhecimento espiritual que ultrapassa todo conhecimento. Antônio escreve: “A caridade é a alma da fé, é o que a torna viva; sem o amor, a fé morre” (Sermões Dominicais e Festivos II).

Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual: este foi o objeto privilegiado da pregação de Santo Antônio. Ele conhecia bem os defeitos da natureza humana, a tendência a cair no pecado; por isso, exortava continuamente a combater a inclinação à cobiça, ao orgulho, à impureza e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza.

No começo do século XIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescimento do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, Antônio convidou os fiéis muitas vezes a pensar na verdadeira riqueza, a do coração, que, tornando-os bons e misericordiosos, leva-os a acumular tesouros para o céu. “Ó ricos – exorta – tornai-vos amigos (…); os pobres, acolhei-os em vossas casas: serão depois eles que os acolherão nos eternos tabernáculos, onde está a beleza da paz, a confiança da segurança e a opulenta quietude da saciedade eterna” (Ibid.).

Antônio, na escola de Francisco, sempre coloca Cristo no centro da vida e do pensamento, da ação e da pregação. Este é outro traço típico da teologia franciscana: o cristocentrismo. Alegremente, ela contempla e convida a contemplar os mistérios da humanidade do Senhor, particularmente o do Natal, que suscitam sentimentos de amor e gratidão pela bondade divina.

Também a visão do Crucificado lhe inspira pensamentos de reconhecimento a Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de forma que todos, crentes e não crentes, possam encontrar um significado que enriquece a vida. Antônio escreve: “Cristo, que é a tua vida, está pregado diante de ti, porque tu vês a cruz como em um espelho. Nela poderás conhecer quão mortais foram tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o sangue do Filho de Deus. Se olhas bem, poderás perceber quão grandes são tua dignidade e teu valor (…). Em nenhum outro lugar o homem pode perceber melhor o quanto vale, a não ser no espelho da cruz” (Sermões Dominicais e Festivos III).

Que Antônio de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceda pela Igreja inteira, sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação. Que estes, inspirando-se em seu exemplo, procurem unir a doutrina sã e sólida, a piedade sincera e fervorosa e a incisividade da comunicação.

 

Fonte: Catequese do Papa Bento XVI

14Bem-aventurada Yolanda

Duquesa da Polônia. Viúva, religiosa da Segunda Ordem (1235-1298). Aprovou seu culto Leão XII no dia 26 de setembro de 1827.

 

Iolanda, ou Helena, como foi chamada depois pelos súditos poloneses, nasceu no ano de 1235, era filha de Bela IV, rei da Hungria, que era terceiro franciscano, e irmã da bem-aventurada Cunegundes. Além disso, era sobrinha de Santa Isabel da Hungria, também da Ordem Terceira. Aliás, a tradição franciscana acompanhou a linhagem desde seus primórdios, pois a família descendia de Santa Edwiges, Santo Estêvão e São Ladislau.

Porém é claro que Iolanda não se tornou Santa só porque vinha de toda esta tradição extremamente católica e repleta de Santos. Não basta ter o caminho da fé apontado para se entrar nele. É preciso que todo o ser o aceite e o corpo se disponha a caminhar por uma trilha de entrega total e muito árdua, como ela o fez.

Iolanda foi educada desde muito pequena pela irmã, Cunegundes, que se casara então com um dos reis mais virtuosos da Polônia, Boleslau, “o Casto”. Por tradição familiar e social da época, Iolanda deveria também se casar com alguém da terra e, anos depois, escolheu outro Boleslau, o Duque de Kalisz, conhecido como “o Pio”. Foi uma época de muita alegria para o povo polonês, que viu nas duas estrangeiras, pessoas profundamente bondosas, cristãs, justas e caridosas. Pena que tenha sido uma época não muito longa, pois alguns anos depois o quarteto foi desmanchado pela fatalidade.

Primeiro morreu o rei, ficando Cunegundes viúva. Logo o mesmo aconteceu com Iolanda. Ela já tinha então três filhas, das quais duas se casaram e uma terceira retirou-se para o convento das clarissas de Sandeck, onde já se encontrava Cunegundes. As duas logo seriam seguidas por Iolanda.

Muitos anos se passaram e as três damas cristãs continuavam naquele lugar, fazendo do silêncio do claustro o terreno para um fecundo período de meditação e oração. Quando morreu Cunegundes, em 1292, Iolanda deixou aquele mosteiro e foi mais para o ocidente, ao convento das clarissas de Gniezno, fundado por seu marido. Ali terminou seus dias como superiora, no dia 14 de junho de 1298.

Amada pela população, seu culto ganhou força entre os fiéis do Leste Europeu e se difundiu por todo o mundo católico, ao longo dos tempos. Seu túmulo tornou-se meta de romeiros, pelos milagres e graças atribuídos à sua intercessão. Em 1827, o Papa Urbano VIII autorizou a beatificação e marcou a festa litúrgica para o dia do seu trânsito.

17Bem-aventurado Pedro de Gambacorta

Ermitão da Terceira Ordem Regular (1355-1435). Fundador da Ordem dos Girolaminis. Aprovou seu culto Inocêncio XII no dia 9 de dezembro de 1693.

 

O fundador dos Eremitas ou Irmãos Pobres de São Jerônimo nasceu em Pisa, no ano de 1355, na época em que seu pai, cujo nome também lhe foi dado, governava aquela república. Aos vinte e cinco anos de idade deixou secretamente a corte, disfarçado de penitente, e se retirou para a solidão úmbria de Monte Bello, onde vestiu o hábito da Terceira Ordem de São Francisco e passou a viver de esmolas que recolhia nas aldeias mais próximas.

Em 1380 conseguiu meios para fundar um oratório e celas para uma dezena de companheiros que se haviam juntado a ele (segundo uma tradição popular eram salteadores de estrada que ele havia convertido). Estabeleceu para a sua comunidade uma regra acrescentada de certas constituições extraídas das obras de São Jerônimo, que ele escolhera como padroeiro da nova congregação.

Seus monges observavam quatro Quaresmas durante o ano, jejuavam às segundas, quartas e sextas-feiras, e todas as noites ficavam em oração durante duas horas depois das Matinas. Por sua parte, ele passava todo o seu tempo em oração ou em exercícios de penitência. Foram-lhe atribuídos muitos milagres.

Quando seu pai e seus irmãos foram assassinados, em 1393, por Giacomo Appiano, ele se sentiu gravemente tentado a deixar seu retiro, para punir os autores do crime, mas venceu a tentação e, seguindo o exemplo de sua irmã, a Beata Clara Gambacorta (17 de abril), perdoou espontaneamente o assassino.

Sua congregação, aprovada pelo papa Martinho V em 1421, logo se estabeleceu em diversas partes da Itália. O Beato Pedro sobreviveu até 1435, morrendo em Veneza aos otienta anos de idade, e foi beatificado em 1693. Durante certo tempo houve quarenta e seis casas dos Irmãos Pobres nas províncias de Ancona e Treviso.

Pequenos grupos de eremitas e terceiros se filiaram a eles, e em 1668 o papa Clemente IX uniu à comunidade de São Jerônimo de Fiésole, que fora fundada por Carlos Montegranelli, à Ordem do Beato Pedro. Mas em 1933 seu número tinha se tornado tão pequeno, que ela foi supressa pela Santa Sé.

Pedro morreu em Veneza no dia 17 de junho de 1435 com a idade de 80 anos.

20Bem-aventurada Miquelina de Pesaro

Viúva da Terceira Ordem (1300-1356). Aprovou seu culto Clemente XII no dia 24 de abril de 1737.

 

A cidade de Pesaro, na costa oriental da Itália, consagra uma devoção especial a esta viúva santa que foi um de seus membros. Nascida de pais ricos e ilustres, Miquelina Metellí se casou aos doze anos de idade com um membro da família Malatesta de Rimini. A união foi feliz, mas quando a morte de seu marido a deixou viúva aos vinte anos, com um único filho pequeno, parece que ela de modo nenhum ficou desolada. Sempre gostara dos prazeres da vida, e durante algum tempo continuou a levar a mesma vida de antes, dando pouca ou nenhuma atenção às práticas religiosas.

Vivia em Pesara por essa época uma terceira franciscana de origem e antecedentes desconhecidos, que atendia pelo nome de Siríaca. Vivia de esmolas, passava a maior parte de seu tempo em oração, e, para se abrigar de noite, dependia da hospitalidade casual das pessoas caridosas. Miquelina, que era uma daquelas que abriam suas portas à estranha, pouco a pouco foi sendo influenciada por ela.

Surgiu entre as duas uma familiaridade que resultou na conversão completa de Miquelina. Somente seu filho a prendia agora ao mundo, e quando ele foi vítima de certas queixas infantis, resolveu renunciar a tudo. Aconselhada por Siríaca, tomou o hábito de terceira franciscana, distribuiu seus bens aos pobres e passou a mendigar seu pão de porta em porta. Não era fácil para uma pessoa que sempre vivera no bem-estar e no conforto acostumar-se com restos de comida que ninguém mais queria. Certa vez, no início de sua nova vida, revelou a uma antiga colega que desejava muito saborear um pedaço de carne de porco assada de fresco. Ansiosa por lhe proporcionar este pequeno prazer, sua amiga convidou-a imediatamente para o jantar. Mas quando o prato com a carne foi trazido à mesa e o cheiro saboroso da iguaria lhe invadiu as narinas, Miquelina caiu repentinamente em si. Recusando-se a sentar-se à mesa, retirou-se da companhia da amiga e açoitou-se com uma corrente de ferro até o sangue escorrer.

A cada golpe, ela se apostrofava irada, exclamando para si mesma: “Ainda queres carne de porco, Miquelina? Ainda queres mais?” Teve de suportar muitas outras provações interiores e exteriores. Seus parentes criticavam severamente sua conduta, e durante certo tempo chegaram até mesmo a metê-la numa prisão como lunática. Sua paciência e brandura, porém, desarmaram-nos: concluíram que, embora iludida, ela não representava nenhum perigo, e a puseram em liberdade. O resto de sua vida ela o passou na renúncia de si mesma e na prática das boas obras.

Cuidava dos leprosos e de outros portadores de doenças repugnantes, exercendo os ofícios mais humildes em favor deles; e conta-se que curou vários deles, beíjando-lhes as chagas. No final de sua vida, Miquelina fez uma peregrinação a Roma, onde, em certa ocasião, lhe foi dada a graça de participar misticamente nos sofrimentos do Senhor. Morreu no Domingo da Santíssima Trindade de 1356, talvez aos cinquenta e seis anos de idade.

Desde o instante de sua morte foi venerada pelos seus concidadãos, que mantinham uma lâmpada acesa dia e noite diante de seu túmulo na igreja franciscana. Em 1580, a casa em que ela vivera, em Pesaro, foi convertida em igreja, e seu culto foi aprovado em 1737.

Encontra-se um breve relato de sua vida em “Acta sanctorum”, junho, voL IV, e em Wadding, “Annales Ordinis Minorum”, vol VIII, p. 140·143; diversas vidas foram publicadas no século XVIII por Bonuccí, Matthaei, Ermanno, Bagnocavallo e outros. Veja-se também Léon, “Auréole Séraphique” (traduzida para o inglês), voL II, p. 422·426. 

23São José Cafasso

Sacerdote da Terceira Ordem (1811-1860). Foi canonizado por Pio XII no dia 22 de junho de 1947.

 

É comum apresentar-se São José Cafasso como um santo da Congregação Salesiana, e isto é compreensível, porque ele era amigo íntimo e diretor espiritual de São João Bosco. Mas trata-se de um engano. São José Cafasso era sacerdote secular, e sua vida, nobre e espiritualmente rica, em geral foi desprovida de episódios externos, como costuma acontecer com o clérigos de vida pastoral da Igreja.

Sua terra natal foi a mesma de São João Bosco e de outros eclesiásticos notáveis, a pequena cidade campestre de Castelnuovo d’Asti, onde nasceu em 1811. Seus pais, João Cafasso e Úrsula Beltramo, eram camponeses abastados, e ele foi o terceiro de quatro irmãos, dos quais a última, Maria Ana, seria a mãe do cônego José Allamano, fundador dos padres missionários da Consolata de Turim.

Quando criança, José Cafasso se distinguia na escola local e sempre se mostrava disposto a ajudar os outros em suas lições: anos mais tarde, um de seus antigos companheiros afirmava que ainda devia dois melros a José por esses serviços. Quando ele completou treze anos, seu pai o mandou para a escola de Chieri, de onde se transferiu para o seminário, aberto recentemente no mesmo lugar pelo arcebispo de Turim.

Foi ali o melhor aluno de seu tempo; foi nomeado prefeito desse estabelecimento durante o último ano, e foi ordenado sacerdote em 1833, com dispensa de idade, por ser ainda muito jovem.

Depois de sua ordenação, em 1832, alugou um modesto apartamento, juntamente com seu amigo e colega de estudos, João Allamano, a fim de continuar seus estudos de Teologia. Logo se desgostou do seminário metropolitano e da universidade, e encontrou seu verdadeiro lar espiritual no Instituto (Convitto) ligado à igreja de São Francisco de Assis, fundado alguns anos antes pelo seu reitor, o teólogo Luigi Guala, para sacerdotes jovens. Se fez filho de São Francisco de Assis inscrevendo-se na Terceira Ordem Franciscana, como assim fizeram  seus ilustres irmãos São João Bosco e São José  Cottolengo. Depois de três anos de estudos nessa casa, Dom Cafasso foi aprovado nos exames diocesanos com grande distinção, e foi imediatamente colocado como professor no Instituto por Dom Guala.

Quando Guala perguntou a seu auxiliar quem devia escolher como professor, esse lhe respondeu: “Escolha o pequeno”, referindo-se a Cafasso. De fato, a primeira coisa que logo chamava a atenção em sua pessoa era sua pequena estatura e seu corpo recurvado, em consequência de uma deformação da coluna vertebral. Mas seus traços eram finos e regulares; seus olhos, negros e brilhantes; seu cabelo, vasto e preto; e de sua boca, geralmente iluminada por um meio sorriso, saía uma voz de sonoridade e qualidade incomuns.

Apesar de sua pequenez e de seu corpo recurvado, a aparência de Dom Cafasso era impressionante e quase majestática. Seus contemporâneos se referem frequentemente a São Filipe Néri e a São Francisco de Sales quando falam dele, e, na verdade, parece que esses santos foram seus modelos. Distinguia-se por uma alegria e uma bondade serenas; e São João Bosco, entre outros, chama a atenção para a sua “tranquilidade imperturbável”. E, assim, logo se propagou a notícia de que o Instituto de São Francisco de Sales de Turim tinha um novo professor que era pequeno de corpo mas grande de alma.

A disciplina ministrada em suas aulas era a teologia moral, e ele não se contentava em instruir sem educar. Seu objetivo não era apenas “ensinar coisas”, mas, iluminando e dirigindo as inteligências, iluminar e dirigir os corações, apresentando o conhecimento não como uma abstração, mas como uma chama viva que comunica vida ao espírito.

Dom Cafasso logo se tornou muito conhecido como pregador. Ele nada tinha de retórico: as palavras lhe afluíam aos lábios com facilidade: “Jesus, a Sabedoria Infinita”, dizia ele a Dom Bosco, “empregava as palavras e expressões que eram correntes entre aqueles aos quais se dirigia. Faça o mesmo”. E não havia tendência ou doutrina que ele não fosse capaz de enfrentar, ora em linguagem coloquial para as multidões, ora em termos mais técnicos para o jovem clero.

Dom Cafasso se destacou entre aqueles que destruíram os últimos vestígios do jansenismo na Itália do Norte, encorajando os fiéis com a esperança e a confiar, com humildade, no amor e na misericórdia de Deus, e combatendo uma moralidade que considerava a menor falta como um pecado grave. “Quando ouvimos confissões”, escrevia ele, “Nosso Senhor quer que sejamos amáveis e compassivos, paternais para com todos aqueles que nos procuram, sem nos preocuparmos com o que eles sejam ou o que tenham feito. Se repelimos alguém, se alguma alma se perde por nossa culpa, lembremo-nos de que um dia seremos chamados a prestar contas disto: seu sangue será requerido de nossas mãos”.

E Dom Cafasso desempenhou um grande papel na formação de uma geração de clérigos que combateria em todos os sentidos e se negaria a transigir com as autoridades civis cuja ideia a respeito das relações entre Igreja e Estado era a de dominação e interferência.

Dom Guala morreu em 1848 e Dom Cafasso foi indicado para lhe suceder como reitor da igreja de São Francisco e do Instituto anexo. Ele mostrou-se tão bom superior quanto fora bom subordinado, e o cargo não era fácil, porque havia uns sessenta padres jovens, provenientes de várias dioceses e de formação e  cultura diversas, e, o que era importante naquela época e naquele lugar, de pontos de vista políticos diferentes. Dom Cafasso fez deles um só corpo, com um só coração e uma só alma, e se uma mão forte e uma disciplina rígida tiveram a sua parte neste desempenho, mais tiveram a santidade do novo reitor e suas elevadas normas.

Seu amor e seu cuidado com os sacerdotes jovens e pastores inexperientes e sua insistência em afirmar que seu pior inimigo era um espírito de mundanidade, tiveram influência marcante no clero do Piemonte. E seu cuidado não se restringia apenas a este: religiosas contemplativas e ativas e leigos, especialmente os jovens, eram indistintamente objeto de seu interesse e de sua solicitude. Ele tinha uma intuição notável no trato com seus penitentes, e pessoas de todos os tipos, grandes e pequenos, clérigos e leigos, acorriam ao seu confessionário. O arcediago de Ivrea, Mons. Francisco Favero, foi um dos que deram seu testemunho pessoal sobre o poder que Dom Cafasso tinha de curar as almas quebrantadas.

Suas atividades, seja na pregação e no atendimento espiritual a todos, indistintamente, seja na orientação e na formação do clero jovem, não se limitavam à igreja de São Francisco e seu Instituto, e, dos lugares em que ele era muito conhecido, se sobressaía o santuário de Santo Inácio, situado fora da cidade, nas colinas de Lanzo. Com a supressão da Companhia de Jesus, este santuário ficou aos cuidados da arquidiocese de Turim, e Dom Luigi Guala foi nomeado seu administrador, em tempo oportuno, e depois de sua morte foi sucedido por Dom Cafasso. Este continuou a obra de seu predecessor, pregando aos romeiros e dando retiros para o clero e para os leigos, ampliando as acomodações e terminando a estrada que conduz ao santuário, iniciada por Dom Guala. Mas de todas as atividades de Dom Cafasso nenhuma tocou mais a imaginação do público, em geral, do que sua obra em favor dos detentos e sentenciados. As prisões de Turim naquela época eram instituições horríveis, cujos ocupantes viviam apinhados em condições bárbaras, mais próprias a degradar aqueles que as suportavam. Isto constituía um desafio para Dom Cafasso, e um desafio que ele agarrou com ambas as mãos. O mais conhecido de seus convertidos, nessas condições pouco promissoras, foi Pedro Mottino, um desertor do exército que se tornara o chefe de um bando de salteadores, particularmente mal afamados. Havia execuções em público, e Dom Cafasso acompanhou mais de setenta condenados até o cadafalso, em várias localidades, e nenhum deles morreu impenitente: ele os chamava seus “santos enforcados”, e lhe pedia que intercedessem por ele. Entre estes condenados se achava o general Jerônimo Ramorino, que tinha sido oficial de artilharia do exército de Napoleão I e, posteriormente, mercenário na Espanha, na Polônia e na Itália. Foi condenado à morte por desobedecer às ordens na batalha de Mortara, e, ao ser convidado a se confessar, na véspera de sua execução, respondeu: “Minha condição não é tal que me obrigue a semelhante humilhação”. Dom Cafasso não concordou e perseverou, e Ramorino foi ao encontro da morte como bom cristão.

João Bosco e José Cafasso se encontraram pela primeira vez no outono de 1827, quando o primeiro era ainda uma criança, muito viva, e o segundo já tonsurado. “Eu o vi! Eu falei com ele!”, anunciou João, quando voltou para casa. “Viste quem?”, perguntou-lhe a mãe. “José Cafasso. E eu te digo que ele é santo”. Quatorze anos mais tarde, Dom Bosco celebrava sua primeira missa na igreja de S. Francisco de Turim, e depois ingressou no Instituto, estudando sob a direção de Cafasso e tomando parte em muitos de seus empreendimentos, especialmente ajudando-o na instrução religiosa dos meninos. Foi Dom Cafasso que o convenceu de que o trabalho em favor dos meninos era sua vocação. E assim um salesiano, João Cagliero, pôde escrever: “Nós amamos e veneramos nosso querido pai e fundador

Dom Bosco, mas amamos igualmente José Cafasso, porque foi mestre, conselheiro e guia espiritual de Dom Bosco nas coisas espirituais e nos empreendimentos, durante mais de vinte anos; e ouso dizer que a bondade, as realizações e a sabedoria de Dom Bosco são a glória de Dom Cafasso.

Na primavera de 1860, Dom Cafasso predisse que a morte o levaria no decorrer daquele ano. Ele redigiu um testamento espiritual, estendendo-se sobre as formas de se preparar para uma boa morte, que ele tantas vezes expusera aos participantes dos retiros do Santuário de S. Inácio, a saber, uma vida piedosa e íntegra, o desprendimento do mundo e o amor ao Cristo crucificado. E fez um testamento dispondo de seus bens, cujo herdeiro universal era o reitor da Pequena Casa da Divina Providência de Turim, fundação de S. José Cotolengo. Entre os outros herdeiros se achava S. João Bosco, que recebeu certa quantia de dinheiro e alguma terra e edifícios vizinhos ao oratório salesiano de Turim. Por essa época, Dom Bosco estava tendo dificuldades com o governador civil do Piemonte, fato este que era motivo de preocupações para Dom Cafasso e lhe afetou a saúde.

Depois de ouvir confissões em 11 de junho, ele se recolheu ao leito, exausto e doente. Manifestou-se uma pneumonia, e ele morreu no sábado, dia 23 de junho de 1860, à hora do Angelus da manhã. Multidões imensas assistiram-lhe os funerais, na Igreja de S. Francisco e na igreja dos Santos Mártires, onde, como convinha ao momento, pregou S. João Bosco. Trinta e cinco anos mais tarde, foi dado início ao processo de beatificação de Dom Cafasso no tribunal diocesano de Turim, e ele foi canonizado em 1947.

Fonte: “A vida dos Santos”, de Butler, Editora Vozes

25Os santos mártires chineses

Santos João Tchang, Patrício Tong, Felipe Tchiang, João Tchiang e João Wang, seminaristas mártires de Tayuenfu (+ 9 de junho de 1900). Canonização: 1º de outubro de 2000, por João Paulo II.

 

A Igreja universal ratifica a santidade destes 120 mártires, que em diversas épocas e lugares deram a vida por fidelidade a Cristo: 32 deles foram martirizados entre 1814 e 1862; 86 morreram durante a revolta dos Boxers em 1900 e dois foram mortos em 1930. Entre eles sobressaem seis bispos europeus, 23 sacerdotes, um irmão religioso, sete religiosas, sete seminaristas e 72 leigos, dos quais dois catecúmenos. Os mártires tinham entre sete e 79 anos. Todos eles foram beatificados, uns em 1900 e outros em 1946. Muitos deles eram chineses das províncias de Guizhou, Hebei, Shanxi e Sichuão e 33 eram missionários europeus.

A perseguição religiosa na China ocorreu em diversos períodos da sua história. A primeira perseguição deu-se na dinastia Yuan (1281-1367). Prosseguiu mais tarde na dinastia Ming (1606-1907), recrudescendo de forma especial em 1900 com a revolta dos Boxers. E continuou durante as cinco décadas de governo sem interrupção. Grande parte destes canonizados deram a vida durante a revolta dos Boxers em 1900, que foi como que uma premonição do que iria acontecer nas cinco décadas de governo comunista na China.

Os missionários foram objeto de um édito imperial de 10 de Julho de 1900, que fomentou e provocou o massacre de milhares de cristãos. Outros morreram durante as perseguições religiosas das dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911). De fora ficarão as centenas de mártires que durante o regime comunista foram perseguidos e deram a vida por fidelidade ao Evangelho e a Cristo. Para a Igreja da China é um acontecimento importante pela magnitude e pelo contexto em que ocorre. É-o igualmente para a Igreja universal, bastante desconhecedora do que acontece com a Igreja da China. Eis algumas considerações sobre o significado do evento.

O martírio tem assinalado a Igreja da China ao longo dos séculos, desde a chegada da mensagem cristã no século VII com a vinda do monge sírio Alopen e dos nestorianos até Xian, capital da dinastia Tang, no ano de 635. Os estudiosos da Igreja na China, que falam de cinco tentativas de evangelização do país, concordam em afirmar que cada tentativa em estabelecer a presença do Evangelho no Império do Centro acarretou perseguições e martírio. Umas vezes pelas discrepâncias de credos, porque o imperador era considerado o Filho do Céu; outras pelos contrastes de culturas ou por motivos políticos; outras vezes por divisões entre as congregações religiosas presentes no território. O facto é que estamos diante de uma Igreja martirial. Mesmo hoje em dia isso é uma realidade permanente tanto para as comunidades subterrâneas como para as que conseguem actuar mais às claras.

O controlo e a perseguição variam conforme os lugares e as situações, mas os cristãos continuam a ser abertamente perseguidos e, por vezes, encarcerados e torturados. Como João Paulo II dizia na sua mensagem aos católicos da China por ocasião da celebração do ano jubilar: «O Jubileu será uma oportunidade para lembrar os trabalhos apostólicos, os sofrimentos, as dores e o derramamento de sangue que têm feito parte da peregrinação desta Igreja ao longo dos tempos. Também no meio de vós o sangue dos mártires se converteu em semente de uma multidão de autênticos discípulos de Jesus… E parece que este tempo de prova ainda prossegue nalgumas localidades.»

Com esta canonização, a Igreja da China envia uma mensagem profética ao mundo de hoje. Tanto pela singeleza com que afirmaram a sua fé como pela valentia em recusar a apostasia que os libertaria dos tormentos, da tortura e das infindáveis humilhações, o testemunho destes 120 mártires é a palavra viva de Deus, clara e ao mesmo tempo misteriosa. É sem dúvida alguma um encorajamento para as gerações vindouras de cristãos. Para além deste grupo de cristãos, muitos mais haveria a canonizar, mas, por falta de provas e informação, não puderam ser reconhecidos, embora a Igreja autentique como valores de ontem e de hoje a fidelidade a Cristo acima de qualquer ideologia, sistema ou tirania.

Os santos chineses espelham uma capacidade de doação e uma confiança ilimitada em Deus num contexto hostil à mensagem cristã. Se o autêntico tesouro do discípulo de Cristo é a cruz e se não há outra forma de seguimento de Cristo senão através da cruz, podemos dizer que a Igreja universal reconhece de forma pública o testemunho destes mártires como riqueza para toda a Igreja.

 

Dos mártires pertencendo à família franciscana, estes onze foram seculares e todos chineses, são eles:

 

46. São João Zhang Huan, seminarista,

47. São Patricio Dong Bodi, seminarista,

48. São João Wang Rui, seminarista,

49. São Filipe Zhang Zhihe, seminarista,

50. São João Zhang Jingguang, seminarista,

51. São Tomás Shen Jihe, leigo,

52. São Simão Qin Cunfu, leigo catequista,

53. São Pedro Wu Anbang, leigo,

54. São Francisco Zhang Rong, leigo,

55. São Mateus Feng De, leigo e neófito,

56. São Pedro Zhang Banniu, leigo.

27Mártires poloneses do Holocausto - Capuchinhos

Beato Fidel Chojnacki (1906-1942)

Frade Capuchinho desde 1933. Era estudante de teologia quando foi preso em 1940. Morreu em Dachau em 1942, esgotado pelos maus tratos e vitimado pela tuberculose. Ao ser transferido para a seção dos inválidos, despediu-se com estas palavras: “Seja louvado Jesus Cristo! Até à vista no céu!”.

 

Beato Sinforiano Ducki (1988-1942)

Frade Capuchinho desde 1918. Vivia no convento de Varsóvia quando foi detido em 1941. Passou por várias prisões até ser transferido para o campo de extermínio de Auschwitz, onde foi assassinado pelos guardas do campo em 1942.

 

Beato Aniceto Koplinski (1875-1941)

Frade Capuchinho desde os 18 anos, e ordenado sacerdote em 1900. Em Varsóvia, onde viveu desde 1918, tornou-se famoso como esmoleiro e protetor dos pobres, chamado por isso o “São Francisco de Varsóvia”. Foi detido em julho de 1941, juntamente com 22 outros religiosos. Não se quis valer da sua ascendência alemã para escapar da morte. A 4 de setembro desse mesmo ano foi com os demais religiosos transferido para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreu em câmara de gás a 16 de outubro desse mesmo ano. Nos interrogatórios, declarara: “Sou sacerdote, e trabalho em qualquer lugar onde haja homens, sejam judeus ou polacos, e mais ainda se forem pobres”. As suas derradeiras palavras foram: “Devemos beber até ao fundo este cálice”.

 

Beato Henrique Krzysztofik (1908-1942)

Padre Capuchinho, professo desde 1927. Guardião e Prefeito de estudos do convento de Lublin, religioso de extraordinário zelo, fé e entrega à cauda de Deus. Preso em 1940 e transferido para Dachau, foi aí o amparo espiritual dos doentes e moribundos. Escrevia ele, na sua última carta aos seminaristas: “Estou pavorosamente magro... peso 35 quilos. Doem-me todos os ossos. Estou estendido na cama como Cristo na Cruz. Mas sinto-me contente por sofrer com Ele. Rezo e ofereço a Deus estes sofrimentos por vós”.  Morreu em agosto de 1942.

 

Beato Floriano Stepinak (1912-1941)

Padre Capuchinho desde 1931. Vivia no convento de Lublin, onde foi detido e deportado para Dachau. Nos momentos de incerteza e terro, procurava confortar o ânimo dos companheiros de prisão, que lhe chamavam o “pai espiritual” do bloco dos condenados, e “sol do negro campo de extermínio”. Em agosto de 1942 foi passado do campo para a seção dos inválidos, e assassinado na câmara de gás.

27Bem-aventurado Benvindo de Gúbio

Religioso da Primeira Ordem (+1232). Gregorio IX e Inocêncio XII em 1697 concederam em sua honra ofício e Missa.

 

Quando em 1222 São Francisco encontrava-se em Gúbio, apresentou-se lhe Benvindo, um nobre cavaleiro, ilustre pelos seu valor militar, suplicando-lhe que o admitisse na Ordem para combater as santas batalhas da penitencia e da pobreza e levar a toda a parte a mensagem de paz e bem. Já noutras oportunidades o Santo recebera como discípulos homens de armas, como Ângelo Tancredo, por estar convencido que certas características da vida militar eram uma espécie de noviciado para a vida religiosa, como por exemplo a obediência, as fadigas, as privações e os perigos. Por isso não hesitou em acolher o novo candidato, que foi mesmo considerado e chamado “Bem-vindo” entre os irmãos.

Apesar da sua ascendência nobre, escolhia agora para si as tarefas mais humildes e pesadas, distinguindo-se por uma obediência pronta, uma modéstia admirável, uma pobreza que o levava a contentar-se com um simples hábito remendado, um rigor de vida que só concedia ao corpo o estritamente indispensável. Não tardou assim a alcançar um alto nível de experiências místicas, e carismas vários, como o dom das lágrimas. Era com orações e lagrimas que intercedia pelos pecadores e pedia a sua conversão. A Eucaristia foi o sol que iluminou toda a sua vida espiritual. Jesus apareceu-lhe algumas vezes em forma de menino, que desde a hóstia consagrada lhe descia para os braços, embriagando-o de doçura.

Encarregado por São Francisco de tratar leprosos nas gafarias, esse exercício de caridade serviu-lhe de trampolim para a mais alta perfeição. Via-se assim obrigado a vencer-se constantemente a si mesmo e a vencer a repugnância natural em lidar com esses doentes, que se mostravam agradecidos pela caridade com que ele os tratava e comovidos com a sua santidade, e se encomendavam às suas orações.

Por causa da austeridade de vida e do trabalho árduo nas leprosarias, não tardou a ficar sem forças. Suportando com paciência as graves enfermidades que agora padecia, continuou assim a imolação que já fizera ao Senhor quando se pusera ao serviço dos leprosos. As etapas que o fizeram chegar à santidade foram a contemplação, o amor à Eucaristia, a devoção a Nossa Senhora, a imitação do seráfico Pai, a paciência nos sofrimentos e sobretudo a inesgotável caridade para com os leprosos. O senhor levou-o para junto de si a 27 de Junho de 1232.

28Santa Vicência Gerosa

Virgem da Terceira Ordem (1784-1847). Fundadora da Congregação Nossa Senhora Menina. Canonizada por Pio XII no dia 18 de maio de 1950.

 

Catarina Gerosa nasceu em 29 de outubro de 1784, em Lovere, no norte da Itália. Reservada e tímida, viveu um período da sua infância atrás do balcão do pequeno comércio da família. De saúde muito débil, não podia estudar. Modesta e caridosa, vivia uma espiritualidade simples, desenvolvida na missa, que frequentava todos os dias.

Os anos seguintes à invasão napoleônica da Itália mudaram sua vida. A crise econômica levou à morte primeiro seu pai, depois sua irmã Francisca e, por último, em 1814, também sua mãe. Apesar da tragédia pessoal, com ânimo e fé inabalável, Gerosa aceitou tudo com resignação. Confiante em Deus, sofreu no silêncio do seu coração, encontrando forças na oração e na penitência.

Teve o grande amparo de seu confessor e orientador espiritual, que pediu ajuda a Gerosa nas atividades religiosas desenvolvidas pela paróquia às jovens carentes. Com zelo, ela organizou um oratório feminino com encontros de orações e palestras religiosas.

Foi lá que, em 1824, conheceu Bartolomeia Capitanio. Era uma jovem professora de dezassete anos, nascida também numa família humilde, em Lovere. Desde menina, pensava em dedicar-se a praticar a caridade aos pobres e aos doentes. Por isso se diplomou professora no colégio das clarissas de sua cidade natal.

Conheceram-se por meio do pároco, porque ele queria que Gerosa criasse alguns grupos de orações para jovens. Ele sabia que Bartolomeia havia criado uma escola para instruir e dar formação religiosa às meninas pobres e abandonadas. Lá, Gerosa daria orientação nas práticas das atividades domésticas. A escola tornou-se um centro de encontro para jovens e muitos grupos de orações também foram criados.

Estavam tão empenhadas em auxiliar os pobres e enfermos que foram chamadas para ajudar no hospital de Lovere. Na oportunidade, tiveram a inspiração de dar vida a uma comunidade religiosa feminina do tipo das irmãs de caridade vicentinas. A situação política, entretanto, era desfavorável, não permitia essa interdependência. Um pouco antes, ingressou na Terceira Ordem Franciscana e absorveu um profundo espírito evangélico.

Com muita dificuldade, junto com a companheira, Gerosa fundou, em 1827, um novo instituto religioso regular, para dar assistência aos doentes, instrução gratuita às meninas abandonadas, fundar orfanatos e dar assistência à juventude. Foi chamado de Instituto das Irmãs de Maria Menina, com sede em Lovere e com as regras escritas por Bartolomeia. Para evitar objeções de caráter político, o instituto foi fundado autônomo. E assim independente ele permaneceu, cresceu e se difundiu nos anos subsequentes. Catarina Gerosa emitiu os votos, vestiu o hábito e tomou o nome de Vicência, sendo eleita madre superiora.

Em 1840, uma carta apostólica de Gregório XVI aprovou o Instituto de Lovere. A morte de Vicenta, aos 63 anos de idade, em 20 de junho de 1847, aconteceu quando já existiam 24 casas das “Irmãs de Maria Menina” espalhadas por todo o mundo, da Palestina até a América. Isso também motivou o Papa Pio XII na sua canonização em 18 de maio de 1950.

Morreu depois de uma longa doença, em 28 de junho de 1847, e foi sepultada ao lado da co-fundadora, no santuário da Casa-mãe, em Lovere. Atualmente, o Instituto das Irmãs da Caridade das Santas Bartolomeia Capitanio e Vicência Gerosa, ou Irmãs de Maria Menina, atua em toda a Europa, África, Ásia e nas Américas.

28Mártires na China

Santa Maria Hermelina de Jesus, Maria da Paz, Maria Clara, Maria de Santa Natalia, Maria de São Justo, Maria Adolfina e Maria Amandina, Franciscanas Missionárias de Maria, Mártires de Tai-yuen-fu (+ 9 de julho de 1900). Canonização por João Paulo II, em 1º de outubro de 2000.

 

Em 1900 sete Franciscanas Missionárias de Maria são martirizadas na China durante a revolução dos Boxers, dando à fundadora a alegria de ter agora sete verdadeiras Franciscanas Missionárias de Maria!. Elas foram para a China para trabalhar com doentes, órfãos e toda espécie de excluídos e fortificar a nova comunidade cristã do Chan-Si. Para substituí-las, a fundadora enviará um novo grupo e, entre elas, uma jovem, Irmã Maria Assunta, cuja generosidade silenciosa conquistou logo em seguida o afeto dos chineses, antes de morrer de tifo em 1905, aos 26 anos. Em 1954, Ir. Maria Assunta foi beatificada por Sua Santidade o Papa Pio XII.

Palavras de Irmã Maria Hermínia, superiora da comunidade, que falou em nome de todas, quando o Bispo lhes propôs que partissem para outro lugar: “Por amor de Deus, não nos impeçais de morrer convosco. Se a nossa coragem é demasiada fraca para resistir à crueldade dos carrascos, acreditai que Deus, que nos envia a provação, nos dará também a força de sair vitoriosas. Não tememos nem a morte, nem os tormentos… Vivemos para praticar a caridade e derramar, se for necessário, o nosso sangue por amor de Jesus Cristo.”

Sete mulheres decidiram ser FIÉIS à mensagem de Jesus e ao povo a quem foram enviadas. Pagaram sua fidelidade com a própria vida… mas a Boa Nova continua a espalhar alegria… Outras Missionárias passaram – e passam ainda hoje – a chama da Fé.

No dia 10 de março de 2000, o Santo Padre João Paulo II, fixou para 1º de outubro de 2000 a canonização dos Mártires da China, entre eles, sete Religiosas Franciscanas Missionárias de Maria serão reconhecidas pela Igreja pelo testemunho de suas vidas heróicas.

Os mártires da China

A Igreja universal ratifica a santidade destes 120 mártires, que em diversas épocas e lugares deram a vida por fidelidade a Cristo: 32 deles foram martirizados entre 1814 e 1862; 86 morreram durante a revolta dos Boxers em 1900 e dois foram mortos em 1930. Entre eles sobressaem seis bispos europeus, 23 sacerdotes, um irmão religioso, sete religiosas, sete seminaristas e 72 leigos, dos quais dois catecúmenos. Os mártires tinham entre sete e 79 anos. Todos eles foram beatificados, uns em 1900 e outros em 1946. Muitos deles eram chineses das províncias de Guizhou, Hebei, Shanxi e Sichuão e 33 eram missionários europeus.

A perseguição religiosa na China ocorreu em diversos períodos da sua história. A primeira perseguição deu-se na dinastia Yuan (1281-1367). Prosseguiu mais tarde na dinastia Ming (1606-1907), recrudescendo de forma especial em 1900 com a revolta dos Boxers. E continuou durante as cinco décadas de governo sem interrupção. Grande parte destes canonizados deram a vida durante a revolta dos Boxers em 1900, que foi como que uma premonição do que iria acontecer nas cinco décadas de governo comunista na China.

Os missionários foram objeto de um édito imperial de 10 de Julho de 1900, que fomentou e provocou o massacre de milhares de cristãos. Outros morreram durante as perseguições religiosas das dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911). De fora ficarão as centenas de mártires que durante o regime comunista foram perseguidos e deram a vida por fidelidade ao Evangelho e a Cristo. Para a Igreja da China é um acontecimento importante pela magnitude e pelo contexto em que ocorre. É-o igualmente para a Igreja universal, bastante desconhecedora do que acontece com a Igreja da China. Eis algumas considerações sobre o significado do evento.

O martírio tem assinalado a Igreja da China ao longo dos séculos, desde a chegada da mensagem cristã no século VII com a vinda do monge sírio Alopen e dos nestorianos até Xian, capital da dinastia Tang, no ano de 635. Os estudiosos da Igreja na China, que falam de cinco tentativas de evangelização do país, concordam em afirmar que cada tentativa em estabelecer a presença do Evangelho no Império do Centro acarretou perseguições e martírio. Umas vezes pelas discrepâncias de credos, porque o imperador era considerado o Filho do Céu; outras pelos contrastes de culturas ou por motivos políticos; outras vezes por divisões entre as congregações religiosas presentes no território. O fato é que estamos diante de uma Igreja martirial. Mesmo hoje em dia isso é uma realidade permanente tanto para as comunidades subterrâneas como para as que conseguem atuar mais às claras.

O controlo e a perseguição variam conforme os lugares e as situações, mas os cristãos continuam a ser abertamente perseguidos e, por vezes, encarcerados e torturados. Como João Paulo II dizia na sua mensagem aos católicos da China por ocasião da celebração do ano jubilar: «O Jubileu será uma oportunidade para lembrar os trabalhos apostólicos, os sofrimentos, as dores e o derramamento de sangue que têm feito parte da peregrinação desta Igreja ao longo dos tempos. Também no meio de vós o sangue dos mártires se converteu em semente de uma multidão de autênticos discípulos de Jesus… E parece que este tempo de prova ainda prossegue nalgumas localidades.»

Com esta canonização, a Igreja da China envia uma mensagem profética ao mundo de hoje. Tanto pela singeleza com que afirmaram a sua fé como pela valentia em recusar a apostasia que os libertaria dos tormentos, da tortura e das infindáveis humilhações, o testemunho destes 120 mártires é a palavra viva de Deus, clara e ao mesmo tempo misteriosa. É sem dúvida alguma um encorajamento para as gerações vindouras de cristãos. Para além deste grupo de cristãos, muitos mais haveria a canonizar, mas, por falta de provas e informação, não puderam ser reconhecidos, embora a Igreja autentique como valores de ontem e de hoje a fidelidade a Cristo acima de qualquer ideologia, sistema ou tirania.

Os santos chineses espelham uma capacidade de doação e uma confiança ilimitada em Deus num contexto hostil à mensagem cristã. Se o autêntico tesouro do discípulo de Cristo é a cruz e se não há outra forma de seguimento de Cristo senão através da cruz, podemos dizer que a Igreja universal reconhece de forma pública o testemunho destes mártires como riqueza para toda a Igreja.

29Bem-aventurado Raimundo Lulio

Mártir da Terceira Ordem (1235-1316). Aprovou seu culto Clemente XIII no dia 19 de fevereiro de 1763.

 

Raimundo Lúlio nasceu em Palla de Maiorca, entre os anos de 1232 e 1233 e morreu em 29 de junho de 1315. Também conhecido como Raimundo Lulio em espanhol,  foi o mais importante escritor, filósofo e poeta, missionário e teóloga da língua catalã. Foi um prolífico autor também em árabe e latim, bem como em Langue d’Oc (ocitano).

Foi um leigo próximo aos  franciscanos, talvez tenha pertencido à Ordem Terceira dos Frades Menores. É conhecido como “Doctor Illuminatus”, embora não seja um dos 33 doutores da igreja.

Ramon era filho de uma família de boa situação financeira, eram seus pais Ramon Amat Llull e Isabel d’Erill.

Dedicou-se ao apostolado entre os muçulmanos. Casou-se com 22 anos com Blanca Picany da qual teve dois filhos: Domingos e Madalena. Mais tarde, após converter-se em 1262 tornou-se terciário franciscano. Em 1275, depois de uma experiência mística, da qual saiu com o duplo propósito de preparar-se para o Magistério e dedicar-se à conversão dos infiéis, e em vista das insistentes queixas de sua esposa abandonou definitivamente a família.

De acordo com Umberto Eco, o lugar do nascimento foi determinante para Llull, pois Maiorca era uma encruzilhada, ná época, das três culturas: cristã, islâmica e judia, até o ponto de que a maior parte de suas 280 obras conhecidas terem sido escritas inicialmente em árabe e catalão.

Além de ser o primeiro autor que utilizou uma língua neolatina para expressar conhecimentos filosóficos, científicos e técnicos e de se destacar por uma aguda percepção que o permitiu antecipar muitos conceitos e descobrimentos, foi o criador do catalão literário, com um elevado domínio da língua e seu primeiro novelista.

De família cristã, Lúlio conviveu com muçulmanos e judeus em sua ilha de origem. Lúlio converteu-se definitivamente ao cristianismo em 1263, no ano da famosa Disputa de Barcelona, entre um teólogo judeu, o mestre Mosé ben Nahman de Girona, e um judeu convertido, Pau Crestià. Nessa Disputa, foi utilizado o procedimento de partir das argumentações do livro revelado do opositor. A partir dessa época, os apologetas cristãos passaram a estudar em profundidade os textos islâmicos e judeus.

Mas Lúlio seguiu uma outra vertente. Em seu diálogo interreligioso, motivado pela tentativa missionária de conversão do “infiel”, preferia partir do que chamava de “razões necessárias”. É o que desenvolve, por exemplo, em O Livro do Gentio e dos Três Sábios (1274-1276).

Futuramente, criará uma forma de argumentação baseada na automatização do pensamento, na chamada Grande Arte, utilizando um procedimento baseado na Zairja.

Conhecido em seu tempo pelos apelidos de Arabicus Christianus (árabe cristiano), Doctor Inspiratus (Doutor Inspirado) ou Doctor Illuminatus (Doutor Iluminado), Llull é uma das figuras mais fascinantes e avançadas dos campos espiritual, teológico, literário da Idade Média. Em alguns de seus trabalhos propôs métodos de escolha, que foram redescobertos séculos mais tarde por Condorcet (século XVIII).