Reflexões

São José, esposo de Maria e patrono da Igreja

Publicado por Paulo Henrique | 20/03/2017 - 10:16
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O Natal de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, é uma das festas mais importantes para os cristãos católicos. Ao celebrá-la, coloca-se em evidência uma das verdades nucleares de nossa fé: a Encarnação do Verbo divino, pois assim nos diz o Apóstolo Paulo: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial” (Gl 4,4-5) 1 . Porém, com o texto de Mt 1,16.18-25, desejamos aprofundar um pouco sobre a figura de São José, o esposo de Maria.

Da mesma maneira que Maria disse sim à vontade de Deus, também José se fez obediente a ele, acreditou na origem divina de seu filho adotivo e na integridade de Maria. Na própria Sagrada Escritura, pouco se fala de José. Sabe-se que é da linhagem do rei Davi (cf. 1Sm 17,12ss; 2Sm 23,1), mas, à luz da teologia davídica, é “importante entender que a descendência de José da dinastia de Davi não é uma escolha dele, mas uma eleição divina. O próprio Davi não escolheu ser o tronco do salvador, mas foi Javé que veio ao seu encontro ”2 . Os Evangelhos nos contam que José viveu em Nazaré, na Galileia (exceto no período do exílio no Egito). E que foi um homem ligado à cultura e ao seu tempo, tão marcado pela dominação romana.

José era carpinteiro. Profissão esta herdada de seu pai, já que era costume no seu tempo o pai transmitir a profissão ao filho. Também não há notícias quanto à sua idade, a não ser por meio dos escritos apócrifos, que não são fontes confiáveis. A José se atribui um adjetivo fundamental: ele é o homem justo. É uma palavra usada no Antigo Testamento “aplicada às pessoas de fé (...) que confiaram na realização da promessa ”3 , ou também àquelas que verão a salvação se cumprir (cf. Mt 13,43.49). Poderíamos estender o assunto, mas não é o nosso objetivo aqui.

Sabemos que há um grande mistério de Deus em Mateus 1,18: (Maria) achou-se grávida pelo Espírito Santo: o “mistério da maternidade divina está totalmente presente nessa afirmação em que o ser humano e a divindade se tornam cúmplices do maior evento da humanidade: a encarnação de Deus”4 . Um último aspecto sobre o qual vale a pena nos determos é a questão do sonho de José. Primeiramente, um sonho pode ser compreendido a partir de pelo menos três ângulos distintos: o neurológico, o psicológico e o espiritual. É este último que nos interessa.

Os povos antigos sempre prestaram atenção aos seus sonhos e deixaram-se guiar por eles. A própria Bíblia é testemunha disso, e ela nos ensina que Deus se manifesta através deles, porque o “sonho é um lugar no qual a nossa atividade pessoal se detém ou, pelo menos, está fortemente diminuída. Aqui não temos mais o controle nas nossas mãos. Assim, Deus pode muito mais facilmente irromper na nossa vida”5 . O sonho de José não é um sonho qualquer, mas crucial, pois, por meio dele, Deus revelou a José o que pretendia em relação a Jesus, e o próprio José compreendeu o que Deus queria dele. Em síntese: “José acolhe o sonho como revelação do próprio Deus por se apresentar a ele como uma realidade palpável. Os Evangelhos apresentam os sonhos na mesma linha da realidade, que é impregnada de influências humanas, enquanto o sonho estava povoado pela voz única de Deus”6 . José é o modelo de obediência perfeita, daquele que soube ouvir a voz de Deus através da vida. Nele estão presentes a prontidão, a agilidade e a responsabilidade. Seu silêncio é emblemático e, ao mesmo tempo, eloquente: “Diante de Deus qualquer argumento é frágil, por isso resta apenas obedecer. José acolhe o sonho porque soube acolher a vida. (...) Percebese harmonia entre aquilo que Deus diz e o que José pensa. Sendo um homem de fé, justo, equilibrado e sereno, podese dizer que foi fácil colocar em prática a vontade de Deus”7 . Enfim, seu silêncio não é indiferença, mas uma atitude de reflexão interior a respeito de seu papel na História da Salvação, da sua missão como servo do Senhor e perfeito educador nosso. Para concluir, poderíamos ampliar nossa compreensão do mistério de Deus e até parafrasear o texto do Evangelho de Lucas 1,38: 

“Disse, então, José: ‘Eu sou o servo do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra!’. E o anjo o deixou”.

Frei Marcos Roberto
Sobre o autor

Frei Marcos Roberto

Frei Marcos Roberto Rocha de Carvalho OFMCap é diretor do Centro Franciscano de Espiritualidade, em Piracicaba-SP