Frei Joaquim: O Frade Essencial

Frei Joaquim: O Frade Essencial

Vi o Frei Joaquim pela primeira vez numa situação estranha. Estava há um ano no Seminário e na madrugada levantei-me para ir ao banheiro. Levei um grande susto porque encontrei um rapaz de uns dezessete anos, magro e de cabelos bem compridos, no corredor. Nós,seminaristas daquele tempo, tínhamos a cabeça raspada, com pequeno topete na frente, que chamávamos de “tipo bodinho”. Levei um susto. Ele me disse: Sou um novo seminarista. Havia chegado de Guapé, MG, um grupo de uns dez novos seminaristas, coletados pelos nossos missionários, que haviam pregado uma missão naquela cidade. Entre eles estavam justamente Frei Joaquim e Frei Clóvis, os dois do grupo que perseveraram até o fim.

Dada a idade deles precisaram de um reforço para alcançar a minha classe. Tiveram dificuldades, mas conseguiram. Daí seguimos juntos até o fim dos nossos estudos. FreiJoaquim sempre foi um bom aluno. Boas notas. Estudioso, bem comportado. Nos boletins de fim de ano vinham três notas: comportamento, aplicação e asseio. Esses ítens eram importantes, porque tirando uma nota abaixo de cinco em um deles, o aluno era mandado para casa. Frei Joaquim estava sempre na turma do nível nove.

No nosso tempo fazia-se a profissão simples, por três anos, terminado o noviciado e solene (perpétua), quando terminava a filosofia. As ordenações das chamadas, naquele tempo, de ordens menores eram recebidas no decorrer dos estudos teológicos. O diaconato no fim do terceiro ano e o presbiterato no meio do quarto ano de teologia. Frei Joaquim e Frei Clóvis ficaram para serem ordenados no fim do ano de 1965. Minha classe foi uma das três classes que chegaram ao fim, com sete sacerdotes ordenados, num só ano, em nossa Província: a classe do Frei Germano Chisté, do Frei José Carlos Pedroso e a nossa.

Quando professou solenemente, como se dizia então, foi passar uns dias com sua família em Guapé. Nessa ocasião passou por uma grande tragédia na família. Com seu pai e seu irmão foi a uma pequena cidade na vizinhança de Guapé, para levar a notificação no livro de batismo, que se fazia necessária. Na volta o ônibus em que estavam capotou. Seu pai perdeu a vida no acidente e seu irmão faleceu três dias depois. Frei Joaquim foi encontrado na estrada em estado de choque. Também precisou ser internado. Não pode sequer comparecer ao sepultamento do seu pai e de seu irmão. Com muita resignação e fé voltou para o inicio dos estudos teológicos, em São Paulo. Mais tarde, já sacerdote, doou um rim para transplante em sua irmã.

Sua vida de sacerdote foi de fidelidade e eficiência em tudo que fazia. Fiel e sempre clássico em suas celebrações. Foi um cultor da liturgia bem celebrada e excelente cerimoniário. Foi Reitor e Pároco da Basílica Menor de Nossa Senhor Aparecida de Rio Preto e também, por um bom tempo, Reitor do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, em Botucatu. Deixou sempre um bom exemplo de correção, de gentileza e elegância no trato com as pessoas.

Teve que superar certas dificuldades. Fez Faculdade música junto às Irmãs Marcelinas de Botucatu. Aprendeu teclado o suficiente para ensaiar e fazer o povo participar do canto nas liturgias e, para superar seu tom de voz um tanto aguda, teve que mudar para um tom mais grave, em exercícios contínuos com especialistas em fonoaudiologia.

Quando os frades me conduziram ao provincialato, cargo em que fiquei por seis anos,conhecedor de suas capacidades, nomeei Frei Joaquim como Secretário Provincial. Minucioso profissional e elegante. Bom redator e dedicado em fazer as coisas com a perfeição possível.Como desejávamos colocar em nível melhor o Arquivo da Província, trabalho já iniciado com Dom Frei Daniel, ele foi à USP procurar, no Departamento de História, alguém que pudesse organizar de maneira mais técnica nosso arquivo. Foi então que recebemos a indicação da Araci. Ela estava acabando de organizar o museu de história da cidade Angatuba, SP. Ele descobriu, na própria USP, um curso de especialização que foi propiciado para ela. Assim foi contratada. Aí nós temos o serviço que Araci tem prestado à Província que dispensa comentários. A escolha do talento tem muito a ver com a visão de Frei Joaquim.

Depois, quando findou nosso tempo, não acompanhei mais os passos dele. Sei que ele escreveu alguns cadernos contando a história de nossos frades falecidos, com excelente redação. Depois veio a velhice que é um privilégio da maioria. E por fim, como diz Santo Irineu de Lion, o chamado final de Deus, que o Santo expressa desse modo: “Vem comigo para a glória, servo bom e fiel, porque termina aqui qualquer possibilidade de pecado”. E como diz o ditado latino secular: “de mortuis nisi bonum”.

Autor:
Frei Ismael Martignago, OFMCap
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