
Jubileu 2025: Peregrinos de Esperança!
Em 9 de maio de 2024, o Papa Francisco levou ao conhecimento de todos a Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário do Ano de 2025. Com esta Bula, intitulada “Spes non confundit” (a esperança não engana), o santo padre nos convida no hoje de nossa história marcada por tantas desilusões e decepções a cultivarmos a esperança em nossos corações. Afinal, “a esperança não decepciona”! (Rm 5,5).
Passaram-se sete meses da Bula papal. E, finalmente, “sob o sinal da esperança” (Bula, 1), o Papa Francisco, na Noite Santa do Natal de 24 de dezembro de 2024, inaugurou solenemente o Jubileu Ordinário da Esperança, com o gesto de abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro, em Roma.
Dito isso, pergunta-se: Por que desde o século XIV, os Pontífices sempre têm proclamado Jubileus ou Anos Santos? Em busca de uma resposta, peguemos o evangelho de João 10, 9. Neste versículo, Jesus se auto revela como nossa porta de entrada no Paraíso. “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem”. Partindo deste sentido teológico da porta, pois o Filho de Deus se apresenta a todos como a Porta da salvação, pode-se dizer que uma das motivações essenciais dos Jubileus é precisamente a de nos levar ao “encontro do Senhor Jesus”, porque Ele é a nossa “meta” (Bula, 5), porque Ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6) que dá sentido à nossa vida como peregrinos de esperança.
Os discípulos de Emaús são uma prova deste encontro com o Senhor Jesus. Emaús é sinônimo de renovação, de encontro e de comunhão. Enquanto caminhavam desanimados e tristes, desolados e iludidos pelo caminho de Emaús, e o motivo destes sentimentos negativos era a visão de Jesus Cristo como um derrotado na Cruz, o Cristo Ressuscitado caminha com eles. Este encontro deles com o Ressuscitado lhes devolveu a esperança, a confiança em Deus, porque descobriram que Jesus Cristo não estava morto; mortos estavam eles com suas ideias estreitas, mundanas. Descobriram que Jesus Cristo estava vivo, porque apareceu a eles, caminhou com eles, dialogou com eles. E partilham um com o outro esta experiência transformadora, renovadora do encontro com o Senhor Ressuscitado que lhes devolveu a chama da esperança com esta pergunta cheia de júbilo e admiração: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho?! (Lc 24, 32).
Em termos simbólicos, compreende-se agora por que uma das imagens características dos Jubileus é exatamente a do Papa passando pela Porta Santa. Quer dizer, o ato de cruzar o limiar da Porta Santa por ocasião de um Jubileu nos diz que Cristo é a nossa Porta do céu, que quem entra por esta Porta Divina vai sempre encontrar interiormente resposta iluminadora, convicção de fé, consolação, tranquilidade, calmaria, alegria, paz, aconchego, sentido, confiança, plenitude de vida. E vai encontrar tudo isso, exatamente porque entrar pela Porta, que é Cristo, é se encontrar pelas estradas da vida com o Senhor Ressuscitado que caminha conosco. Como é bom e maravilhoso então podermos convictamente dizer esta doxologia na liturgia Eucarística: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo”.
Daqui resulta destacar que sermos agraciados pela providência divina com os bens espirituais do Jubileu da Esperança é tudo o que o Papa Francisco deseja para nós. Por este motivo, ele nos pede que sejamos peregrinos de esperança nos dispondo a passarmos pela Porta Santa inaugurada também nas Dioceses, e nesse movimento intencional do nosso coração lucrarmos as santas Indulgências. Afinal, ir direto para o céu logo depois da morte não me parece uma empreita tão fácil assim, uma vez que, conforme a Doutrina da Igreja, existem as chamadas penas contraídas dos pecados já perdoados a serem pagas ou purificadas seja nesta vida, seja depois da morte! Ora, pensar numa purificação depois da morte para as penas contraídas, é pensar no Purgatório para os que morreram na amizade com Deus, mas não totalmente purificados (CIC, 1030). Afinal, no céu não entra sujeira, impureza!
Uma pessoa, por exemplo, que em vida sempre teve a atitude de culpar o outro pelos seus fracassos, de vibrar pela destruição do outro, de achar-se superior ao outro, de fazer o possível e o impossível para diminuir a reputação moral do outro, de maltratar o outro psicologicamente a tal ponto de levá-lo à enfermidade, de não se sentir contente com o crescimento e a missão do outro, de agir com má fé contra o outro, de ter deixado sequelas dolorosas na vida do outro, pergunto: quando morre, será que essa pessoa vai logo direto para o céu com todo esse dossiê ou “curriculum vitae” conhecido? Será que essa alma não está é no Purgatório em estado de purificação pagando as devidas penas contraídas por conta de seus atos implacáveis durante a vida terrena para poder um dia entrar no céu? Sendo assim, será, então, que essa alma não está é necessitada agora das orações da Igreja? Que dela nos lembremos em nossas orações?
Percebe-se que há uma tendência no geral de querer logo santificar quem morre. Em nome do princípio da caridade na verdade, julgo que Deus não quer que sejamos emotivos e mentirosos nessa hora, mas realistas e verdadeiros com o que é sério. Então, cabe-nos tão somente rezar pelos que já morreram, mandar rezar a missa pelos que já morreram, fazer penitência ou um ato devocional pelos que já morreram, enfim, de nossa parte convém apenas fazer o que a Mãe Igreja nos ensina e pede (CIC, 1032). Pois bem, o que a Igreja nos pede neste Ano Santo de 2025, não é uma boa oportunidade de graça para alcançar também as Indulgências em favor das almas no Purgatório levando a sério o Jubileu da Esperança?
Constata-se que a esperança não decepciona nem sequer os que estão sendo purificados no Purgatório. Existe apenas um detalhe: quem está em via de purificação no Purgatório nada pode fazer por si para agilizar sua entrada no céu. A pessoa no Purgatório pode rezar mil terço, mas isso não vai influenciar em nada, porque no Purgatório o que prevalece é a justiça divina. O Tempo da misericórdia é aqui na terra enquanto estamos vivos. Então, quem está no Purgatório depende da oração da Igreja, depende da nossa oração, depende de cada um de nós de rezarmos pela Igreja padecente. Ora, a prática das Indulgências vem em socorro tanto da Igreja peregrina (nós viventes peregrinos e forasteiros neste mundo), quanto da Igreja purgante (os que já partiram deste mundo e estão no Purgatório à espera da visão beatífica). Como se vê, as Indulgências alcançadas servem para os vivos e para os mortos. São verdadeiras fontes de graça que revelam a infinita misericórdia de Deus por nós criados à sua imagem e semelhança. Tais meios de graça podem muito bem nos beneficiar se nos dispormos a fazer do Jubileu da Esperança um tempo oportuno da graça do Senhor na nossa “sequela Christi”.
Neste Ano Santo, todos somos chamados a sermos “sinais palpáveis da esperança” (Bula, 10) para as pessoas, porque a esperança tem um nome: Cristo Jesus, Filho do Deus vivo (1 Tim 1, 1); é por causa desse nome tão santo e tão amável que somos frades menores capuchinhos a serviço do Reino de Deus. E mais ainda: sermos “sinais palpáveis da esperança” é ajudar as pessoas a se voltarem para Deus como o que há de mais belo e essencial em nossas buscas, porque no “meu Deus e meu tudo” de Francisco de Assis descobrimos que Ele nos basta existencialmente ao nos darmos conta de que no meio de tantas coisas deste mundo parece que nada nos basta, que nada nos é suficiente, que nada nos satisfaz: nem funções ou cargos, nem status, nem destaques, nem diplomas, nem carro, nem dinheiro, nem afetos terrenos, enfim, nenhum tipo de apego. Aliás, estes meios mundanos que não nos bastam, porque nunca serão bastantes, suficientes, será que não são potenciais capazes de levar um religioso, um padre, um leigo à frustração, à ansiedade, à depressão, à desolação, à tristeza, à amargura? Enfim, sermos “sinais palpáveis da esperança”, como nos pede o Bispo de Roma, é levarmos alegria interior às pessoas, para que diante dos altos e baixos da vida neste mundo descubram que a vida é bela, que a vida é projeto de Deus e que todos fomos chamados à “santidade, nem mais nem menos”.
Que o “Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor” ao qual devemos “agradecer-Lhe, louvá-Lo e servi-Lo com grande humildade” nos conceda em Cristo Jesus, nossa esperança contra toda desesperança, a graça da preocupação diária com o cultivo interior e espiritual, e desse modo sentirmos o nosso coração palpitando sempre mais jubiloso, encantado e alegre!
Frei José Luís Leitão, OFMCap.
São Luís, MA (Coroadinho), 27 de fevereiro de 2025.