A primitiva pureza dos primeiros frades
27. Gozando das primícias do Espírito, os frades daquele tempo serviam ao Senhor não com constituições humanas, mas com o livre afeto de sua devoção, contentes apenas com a regra e pouquíssimos estatutos que elaboraram no começo, no mesmo ano após a confirmação da regra.
Esta foi a primeira constituição que São Francisco fez depois da Regra Bulada, como disse Frei Alberto, de feliz memória: que os frades não comessem mais do que três pedaços de carne entre os seculares, por causa da observância do santo Evangelho (Lc 10,8; RNB 3,13; RB 3,14), porque chegara a ele o boato de que os irmãos comiam com avidez.
Os frades costumavam manter o silêncio até Terça e ser tão assíduos na oração que dificilmente havia alguma hora durante toda noite em que não estivessem alguns frades em oração na capela. Também nas principais solenidades cantavam com tanto fervor que, por vezes, as vigílias se prolongavam por toda noite; e mesmo sendo só três ou quatro ou quando muito seis, cantavam solenemente com música.
Tanta era sua simplicidade e tanta a pureza que, no capítulo, diante de todos, confessavam suas culpas em relação à poluição noturna. Arraigara-se também entre eles tão religioso costume que não juravam por nada, mas diziam simplesmente: “Sabei”. Logo que alguém era repreendido pelo superior ou pelo companheiro, respondia: Foi minha culpa, e frequentemente também se prostrava. Por isso, o mestre dos Pregadores, Frei Jordão, de feliz memória, disse que o demônio, uma vez que lhe aparecera, tinha dito que esse Foi minha culpa lhe roubava tudo que tinha pensado que ia lucrar entre os frades menores, porque eles confessavam as culpas reciprocamente, quando um ofendia o outro.
28. Os frades sempre foram tão bem humorados e alegres entre si que mal conseguiam conter o riso só de olhar um para o outro. Por isso, como os frades jovens de Oxford riam muito, foi imposto a um deles que recebesse tantas disciplinas quantas vezes risse no coro ou à mesa.
Aconteceu que, como tinha recebido onze disciplinas em um só dia e não podia conter o riso, teve numa noite uma visão de que todo o convento estava no coro, e os frades eram tentados a rir, como de costume; e eis que o Crucificado que estava pregado na porta do coro se voltou para eles como se estivesse vivo e disse: “São filhos de Coré (cf. Nm 16) os que riem e dormem na hora da cruz”.
Parecia-lhe também que o crucificado tentava tirar as mãos do patíbulo, como se quisesse descer e ir embora; e que o custódio do Lugar subiu logo e reforçou os cravos de modo que ele não desceu. Aterrorizados quando lhes contou a visão, os frades portavam-se com mais maturidade e sem rir muito.
Tinham tanto zelo pela verdade que dificilmente ousavam contar alguma coisa com exagero e dificilmente escondiam as próprias culpas, mesmo quando sabiam que seriam punidos se as confessassem.
29. Nunca tiveram dificuldades para adquirir Lugares, morar nos já adquiridos ou ao fazer qualquer outra coisa, como quer que fosse, se soubessem que assim fora ordenado pelo superior. Por isso acontecia que os frades, tanto os de origem nobre quanto os respeitáveis no mundo por outras condições e muito considerados na Ordem, obedeciam sem se queixar. Parecia que a única coisa que entristecia o grande afeto de seus corações era terem que se separar uns dos outros. Por isso era freqüente acompanharem até bem longe os frades que iam embora e, derramando muitas lágrimas na hora da separação, demonstravam uns aos outros a força da afeição.
A promoção dos pregadores
30. Embora os irmãos se aplicassem em tudo com o maior empenho à mais alta simplicidade e à pureza de consciência, eram tão fervorosos em ouvir a lei divina e nos exercícios escolásticos que não tinham preguiça de ir às escolas de teologia todos os dias com os pés descalços no rigor do frio e com lama funda. Por isso, com a cooperação da graça do Espírito Santo, dentro de pouco tempo muitos foram promovidos ao ofício da pregação. Entre eles, o primeiro foi Frei Hugo de Baldock, de feliz memória; depois, Frei Felipe de Londres e Frei Guilherme de Ashby, que pregara a palavra de Deus tanto ao clero quanto ao povo não só pela palavra, mas também por exemplar devoção.
31. Mas foi a chegada de Frei Haymon de Faversham, sacerdote e pregador famoso, que entrou com três outros mestres em Saint-Denis, na Sexta-feira Santa, que mais promoveu os pregadores e lhes deu autoridade e prestígio 22.
Pois ele, quando ainda era secular, usava cilício até aos joelhos e deu muitos outros excelentes exemplos de penitência. Por isso, acabou ficando tão doente e fraco que mal podia viver se não usasse roupas macias e quentes. Um dia teve uma visão: estava em Faversham e rezava na igreja diante de Cristo crucificado. De repente desceu uma corda do céu, ele a agarrou e segurou e assim foi arrastado por ela para o céu.
Por isso, quando viu os frades menores em Paris, recordando-se da visão, refez as forças e, sobrepujando a si mesmo, induziu com habilidade seu companheiro, o mestre Simão de Sandwich, e dois outros famosos a que, enquanto celebrava a missa, eles perguntassem ao Senhor Jesus Cristo o que lhes seria melhor para a salvação. E como a profissão dos menores agradasse ao mesmo tempo a todos, para maior segurança, dirigiram-se a Frei Jordão, de santa memória, mestre da Ordem dos Pregadores, e obrigaram-no em consciência. a dar-lhes fielmente seu conselho.
Este, como era verdadeiramente inspirado, confirmou com seu conselho o propósito concebido. Então os quatro dirigiram-se ao ministro, Frei Gregório de Nápoles, e, recebidos por ele em Saint-Denis, receberam o hábito com grande júbilo depois que Haymon pregou na sexta-feira santa sobre o verso:Quando o Senhor reconduziu os cativos de Sião, ficamos como consolados (Sl 125,1).
No dia da Páscoa quando Frei Haymon viu tanto povo na paróquia em que os frades ouviam a missa – pois ainda não tinham capela –, disse ao custódio, que era leigo, chamado Benvindo, que, se ele consentisse, de bom grado pregaria ao povo, para que não comungassem em pecado mortal.
O custódio ordenou-lhe da parte do Espírito Santo, que pregasse. Então ele pregou, de maneira tão envolvente que muitos adiaram a comunhão até se confessarem com ele. E, assim, ele esteve três dias na igreja, ouviu confissões e confortou não pouco o povo.
32. Como já dissemos, quando os frades vieram no começo para a Inglaterra, ele veio também e foi muito útil à simplicidade dos primeiros frades, tanto nas pregações quanto nas disputas e principalmente por obter o favor dos prelados. Pois foi tão simpático e eloquente que era bem acolhido até pelos adversários da Ordem.
Por isso, foi feito primeiramente custódio de Paris, depois lente em Tours, em Bolonha e em Pádua. Também foi enviado como legado à Grécia e a Vatácio com Frei Rodolfo de Reims, de feliz memória pelo saudoso papa Gregório.
33. Ele fez com que Frei Gregório de Nápoles, antes ministro da França, fosse removido do ministério por força do que fizera e, pelo justo juízo de Deus, depois de ter libertado os que ele injustamente encarcerara, mandou que fosse encarcerado.
Também, por admirável fervor de Deus, depôs Frei Elias, que era ministro geral, por causa dos escândalos que deu e da tirania que exerceu contra os que zelavam pela Ordem, em presença de nosso pai, o papa Gregório, quando muitas províncias apelaram contra Elias, no tempo em que ele [Frei Haymon] era o procurador. Quem pode envaidecer-se de seus méritos, quem pode estar seguro de si, quando sabe que tais pessoas chegaram a tanta calamidade? Quem na Universidade de Paris ou no clero de toda a França pode ser comparado a Gregório como pregador e superior? Quem em todo o mundo cristão mais simpático e famoso do que Elias? No entanto, no fim um mereceu o cárcere perpétuo e o outro, por desobediência e apostasia, mereceu a excomunhão do sumo pontífice. Mas, um e outro, embora tarde, se arrependeram.
34. Com Frei Haymon, veio para a Inglaterra o velho Frei Guilherme de Colville, homem de suma simplicidade e exímia caridade. Uma irmã dele foi mais tarde cruelmente estrangulada na igreja catedral de Chichester, para guardar a castidade.
Pois um jovem que, desejara durante muito tempo encontrá-la sozinha por causa de sua beleza, e seduzi-la, como não conseguiu de modo algum dobrá-la à sua vontade, provou quão maligno é o amor carnal, matando-a na igreja. Pois é freqüente que entre os que se amam carnalmente nasça um ódio tão grande quanto tinha sido o amor.
35. Depois, chegaram à Inglaterra muitos outros frades respeitadíssimos, oriundos da Inglaterra, que entraram em Paris, e que conheci quando ainda me vestia de secular: Frei Ricardo Rufo, lente egrégio, que depois, com o zelo de reformar a Ordem contra Frei Elias, partiu com Frei Haymon para a cúria, como representante da França.
Ele narrou também que um noviço lhe contara que, sofrendo de sede contínua e sem poder dormir de noite, como se estivesse sempre com sede e não pudesse dormir de noite, apareceu-lhe alguém formoso, com o hábito dos frades, e ordenou-lhe que se levantasse e o seguisse. Feito isso, levou-o a um lugar muito ameno, introduziu-o num belíssimo palácio; deu-lhe de beber uma bebida muito suave e lhe disse: “Filho, todas as vezes que sentires sede, vem a mim aqui e te darei de beber”. E o noviço perguntou quem era; ele disse que era Frei Francisco. Em seguida, voltando a si, o noviço não sofreu mais absolutamente nenhuma tentação de sede: sentiu-se alimentado e confortado.
36. Nessa ocasião chegou também Frei Rodolfo de Rochester, que se tornou muito amigo do senhor rei da Inglaterra por seu talento oratório. Com o seu fim provou como é inimiga de Deus a amizade deste mundo, e como é contrário à pureza da Ordem dos Frades Menores morar na corte dos príncipes e obter favores dos grandes.
37. Chegou também Frei Henrique de Burford que, sendo ainda noviço e cantor dos frades de Paris, compôs durante a meditação estes versos contra as tentações que suportou: “Tu que és menor, não rias, porque para ti é bom chorar; junta ao nome teus costumes. És menor de nome: sê menor no que fazes; suporta o trabalho; que a paciência refreie o orgulho da mente. Pois o coração castiga a falta de ânimo e a paciência purifica o que houver de impuro. Quem te corrige é quem te guarda: não odeia a ti, mas ao que fazes. Que pensas ser com essa roupa vil, com comida e cama de porcos? É certo que tudo perderás abertamente se desmentires com os fatos o teu hábito. É sombra de um menor quem tem o nome mas não é de fato”.
Mais tarde, por sua grande honestidade, mereceu ser companheiro de quatro ministros gerais(16) e de quatro provinciais da Inglaterra(17). Também foi o primeiro intérprete e pregador do patriarca de Antioquia em sua legação na Lombardia(18) Depois foi penitenciário do senhor papa Gregório IX, custódio de Veneza e por certo tempo vigário do custódio de Londres.
38. Chegou também Frei Henrique de Reresby, que mais tarde, quando vigário do custódio de Oxford, foi nomeado ministro da Escócia, mas morreu antes. Depois da morte, apareceu ao custódio, dizendo que, mesmo que os frades não fossem condenados pelo excesso que cometeram nas construções, eram severamente punidos; e acrescentou que, se os irmãos rezassem bem o oficio divino, seriam ovelhas dos apóstolos.
39. Nessa ocasião, também chegou à Inglaterra Frei Martinho de Barton, que mereceu ver com freqüência o bem-aventurado Francisco. Depois, foi vigário do ministro da Inglaterra e se saiu muito bem em muitos outros ofícios. Ele contou que havia cinco mil frades no Capítulo geral em que São Francisco mandou destruir a casa construída para o Capítulo. Seu irmão de sangue foi procurador do Capítulo e defendeu a casa em nome da comuna. E o bem-aventurado Francisco, por meio dele, escreveu de próprio punho uma carta, ao ar livre, na chuva e sem se molhar, ao ministro e aos irmãos da França, para que, ao verem a carta, se alegrassem, proclamando louvores ao Deus Trindade: “Bendigamos o Pai e o Filho e o Espírito Santo”.
No mesmo dia, o mesmo pai, refugiando-se na igreja ao ouvir o barulho de um frade que caíra num poço profundo, derramou sua oração e o manteve ileso. Disse também que um frade, que estava em oração em Bréscia no dia do Natal do Senhor, foi encontrado ileso sob a ruína das pedras, pois a igreja ruiu durante o terremoto que São Francisco predissera e mandara que os frades anunciassem, por uma carta escrita em mau latim, em todas as escolas de Bolonha. Este terremoto aconteceu antes da guerra de Frederico durante quarenta dias contínuos, de modo que se abalaram todas as montanhas da Lombardia.
40. Chegou também à Inglaterra o espanhol Frei Pedro que, depois, foi guardião de Northampton; ele usava cilício para domar as tentações da carne. Teve um noviço em seu convento que era tentado a sair da Ordem; finalmente, obteve dele que pelo menos o acompanhasse até ao ministro. Quando iam caminhando, Frei Pedro começou a pregar-lhe sobre a virtude da santa obediência, e um passarinho do mato ia à frente deles, andando pelo caminho.
Então o noviço, que se chamava Estêvão, disse: “Se é como dizes, pai, ordena em virtude da obediência que esse passarinho do mato me espere para que eu o pegue”. Quando ele fez isso, o pássaro parou e o noviço foi pegá-lo, tratando-o como quis. Acalmou-se na mesma hora toda a sua tentação, e Deus pôs nele outro coração. Voltou logo para Northampton e prometeu perseverar. Mais tarde foi um egrégio pregador, como eu mesmo vi.
A divisão da província em custódias
41. Depois disso, com os Lugares já multiplicados e os frades cada vez crescidos em número e méritos, pareceu conveniente dividir a província em custódias. Então, no primeiro capítulo provincial de Londres, a província foi dividida em quatro custódias que sobressaiam cada uma por sua santidade.
Na custódia de Londres, dirigida por Frei Gilberto, a quem a Virgem bem-aventurada apareceu na hora da morte, vigoraram principalmente o fervor, a reverência e a devoção no oficio divino. Na custódia de Oxford, dirigida por Frei Guilherme de Ashby, vigorou especialmente o estudo.
42. Na mesma custódia de Oxford, governada por doze anos por Frei Pedro, os frades não usaram travesseiros até ao tempo do ministro Frei Alberto. Por isso, quando Frei Alberto disse em Capítulo que os frades tinham feito inconvenientemente montinhos para apoiar a cabeça, o custódio respondeu que os irmãos sabiam muito bem que eram carnais e que não precisava dizer-lhes isso. Mas os frades não usavam nem sandálias, a não ser os enfermos e os fracos, e isso com licença.
E aconteceu que Frei Walter Madeley, de feliz memória, encontrou um par de sandálias e as calçou quando foi para as Matinas. Achou que esteve nas Matinas bem melhor do que costumava. Mas, depois, quando foi para a cama e estava descansando, sonhou que devia atravessar uma passagem perigosa entre Oxford e Gloucester, que se chama Baisaliz, onde costumavam estar salteadores; quando desceu num vale profundo, eles acorreram dos dois lados da estrada, gritando e dizendo: “Matai, matai!” Todo aterrorizado, ele disse que era frade menor.
E eles disseram: “É mentira, pois não andas descalço”. E ele, pensando que estava descalço como de costume, disse: “Não, estou descalço”; e ao mostrar seguidamente o pé, descobriu que estava calçado diante deles com as tais sandálias. Logo despertou e, por causa da grande confusão, atirou os calçados no meio do quintal.
43. Na custódia de Cambridge, que foi governada por Frei Ricardo de Ingworth, vigorou principalmente a penúria de dinheiro, tanto que, até aquele tempo em que Frei Alberto visitou a Inglaterra, os irmãos daquela custódia não usavam mantos, como o mesmo pai contou.
44. Na custódia de York, governada por Frei Martinho de Barton, reinou o zelo pela pobreza; pois ele não permitiu que houvesse em qualquer Lugar mais frades do que os que pudessem ser mantidos só com víveres da mendicidade, sem débitos.
45. Na custódia de Salisbury, presidida por Frei Estêvão, reinou principalmente o afeto da caridade mútua. Ele mesmo tinha tanta suavidade, tão bom humor, tão exímia caridade e compaixão que não permitia, quanto possível, que alguém se entristecesse. Por isso, quando teve que morrer e lhe foi oferecida a hóstia salutar, viu na hóstia uma porta pela qual devia entrar e assim, cantando em alta voz: “Salve Rainha de misericórdia”, morreu de maneira feliz em Salisbury.
46. Na custódia de Worcester, dirigida por Frei Roberto de Leicester, reinou principalmente a pura simplicidade; pois ele, na verdade, pequeno de corpo, mas grande de coração, sempre buscou a mais alta simplicidade e promoveu muitos simples para a Ordem. No final, gritando e chorando encomendou sua alma simples ao Senhor em Worcester.
Os capítulos dos Visitadores
47. Depois disso foram enviados visitadores especiais à Inglaterra e, fazendo as visitas, eles celebravam capítulos. O primeiro visitador foi Frei Guilherme de Colville, o velho, que celebrou seu capítulo quando o provincial era Frei Agnelo, em Londres, onde o senhor Guilherme Joynier tinha construído uma capela a suas custas. Nessa ocasião, celebrou a inauguração dela com memorável pompa.
48. Nesse Capítulo da visita de Frei Guilherme de Colville, um frade pregou contra a contração de dívidas e disse que assim aconteceu com os procuradores e também com um sacerdote que costumava fazer todos os anos a festa de São Nicolau. Aconteceu que ele ficou tão pobre que não pôde celebrar a festa ou banquete de costume. Chegado o dia, quando bateu o sino para matinas, ficou deitado na cama pensando no que fazer. O primeiro sino tocava e ressoava: “Ieo ke fray, ieo ke fray” (E eu que farei, e eu que farei); e o segundo respondia: “a crey, a crey” (a crédito, a crédito); e enquanto pensava como pagar, os dois tocavam e parecia que dissessem: “Ke del un, ke del el,” (um pouco de um, um pouco de outro). E, levantando-se, fez a festa com um empréstimo. E o sermão foi aprovado pelo Capítulo.
49. Depois deste, veio Frei João de Malvern, que foi o primeiro a trazer a declaração da regra segundo o senhor Gregório IX. Ele também convocou para a visita os frades, em grande número, mesmo os noviços, de Londres, de Leicester e de Bristol, sob Frei Agnelo. Nesse tempo era tão rígida a consciência dos irmãos quanto a construir edifícios e ter pinturas que ele manifestou a maior oposição aos vitrais da capela no lugar de Gloucester e, por causa do púlpito que o mesmo irmão pintara, lhe tirou o capuz; e também do guardião, porque tolerara a pintura.
50. O terceiro visitador veio da parte do ministro geral, no governo de Frei Alberto: o alemão Frei Vigério, homem muito famoso como perito em Direito e notável em toda honestidade e muito amigo do senhor Cardeal Oto, que era então legado na Inglaterra. Ele recebera do ministro geral um rescrito tão severo e exagerado que houve muita perturbação por toda parte entre os frades, como nunca houvera na Ordem; o rescrito determinava principalmente que fossem excomungados de fato todos os que de algum modo lhe escondessem alguma coisa ou lhe velassem as coisas ditas, de cuja sentença ninguém podia absolver a não ser ele, ademais que levasse ao ministro geral todas as acusações. Então foram convocados os frades em Londres, Southampton, Gloucester e Oxford. Como aí permaneceram em grande número mais do que necessário, originou-se de repente uma intolerável tempestade por toda a província, internamente por meio de acusações mútuas e exteriormente por meio da suspeição dos seculares. Finalmente, terminada a visita, celebrou-se o Capítulo provincial em Oxford, e foi unânime o apelo contra Frei Elias.
51. Além da visita, o visitador teve o poder e recebeu o mandato de fazer outras coisas que constituíam notável peso para os frades. Por isso foi à província da Escócia e, convocado o Capítulo, quis fazer a visita. Mas os frades formularam um apelo e o propuseram por escrito, dizendo que foram visitados pelo ministro da Irlanda com a autoridade do Capítulo geral e que não queriam receber outra visita.
Por isso, perturbados todos por toda parte e não pouco perturbado ele próprio, voltou para a Alemanha, levando o relatório de sua visita. E Frei Guilherme de Ashby, que ele enviara à Irlanda para a visita, depois de ter concluído tudo, foi ter com ele em Colônia. Por isso, os frades foram a Roma e pediram que as visitas aos frades em seus Lugares fossem as mandadas pelo capítulo geral, como diz a constituição sobre os visitadores. Então o penitenciário Frei Arnulfo disse ao senhor papa que, se o diabo se encarnasse não encontraria laço mais sutil e forte para laçar as almas do que foi aquela visita.
52. No Capítulo da visita de Frei Vigério, fora muito acusado Frei Eustáquio de Merc, de santa memória, então excluído do Capítulo por um dia e meio. Um outro, que era menos considerado, fora logo tido como santo, e disse: “Ai de mim! Aquele homem de tão famosa santidade e de tão provada vida religiosa e de tão notável discernimento foi visitado desta maneira; e por isso eu escapei! Daqui em diante, quem dará algum valor aos julgamentos dos homens?”